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O nome disso é machismo: pela reverberação de um novo mantra.

Por Marcone Bispo*

Assim como fizeram com a palavra ‘vandalismo’ – repetida incessantemente para associá-la, mesclá-la, (con)fundi-la com os protestos que grassam em terras brasileiras – os veículos de comunicação poderiam começar a usar a palavra ‘machismo’ quando noticiarem mais um assassinato de mulher cometido pelo namorado/companheiro/marido. Ou, ainda, quando forem falar dos crimes engendrados, estudados, postos em prática pelas torcidas/torcedores organizados (estou sob o impacto do torcedor do Santos assassinado esta semana numa parada de ônibus). Assim, teríamos esse aspecto secular da nossa construção de gênero posto em discussão, debatido, olhado, trazido para mesa do jantar e do bar. 

Porque vejam: amigos meus, que eu até considerava sabidos e conscientes, começaram a dizer que o “ruim dos protestos é que sempre tem gente infiltrada para provocar bagunça, os vândalos, né?”. Minha sobrinha de quatro anos pediu de presente uma Barbie Vândala, que já vem com kit manifestante e tudo. Minha avó de 102 anos ralhou com um bisneto dela dizendo: “esse menino dessa idade e já é um vândalo!”. Meu sobrinho disse desejar um amor vândalo neste carnaval: que seja imprevisível, que comece pacífico e acabe em quebra-quebra. Na cama… Veja só!

Assim faríamos com a palavra ‘machismo’. Que ela comece a participar do nosso cotidiano não como elemento positivo, rescaldo assertivo do que sobrou do homem de Neandertal, dos dinossauros, Matusalém, do Pai Celestial, amém. Gente, cansei! Os noticiários sequer mencionam que estamos tratando de um aspecto conhecido, identificado, evidente da nossa formação, do nosso modo de ver/fazer nesta colônia, capitania, freguesia, sociedade. Temos que começar a dar o tal nome (MACHISMO!) a estas ações, dizer que são consequências de. Dele. O machismo já foi isolado em laboratório, examinado, estudado, discutido e suas chagas parecem não ter cura. Mas têm!

Virei ‘pai’ de um garoto lindo, gente boa, o meu sobrinho. Começou a morar comigo tinha 15 anos, hoje tem 20. Um dia me surpreendi com ele dizendo que não ia sair com uma garota porque tinha que ter dinheiro para pagar o cinema dele e dela. Que isso era uma obrigação dele como homem. E aí? Dá pra sacar o nível das nossas deformações? Dá pra sacar o quanto é importante dar, de verdade, algumas informações?

* é educador.