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O Carnaval e a linha editorial do jornalismo-onanismo

beijoforcadoPor: Carol Almeida*

Balança o saco, balança o saco, balança o saco porque está aberta mais uma temporada do jornalismo-punheta-brasil. É chegado o Carnaval e, com ele, o tradicional desfile machista dos portais de notícia, das piadas ~inocentes~ nas transmissões ao vivo, das inúmeras e incansáveis eleições de musas, de bundas e peitos, as carnes baratas no mercado de notícias. Ano após ano, a perpetuação, legitimada e endossada pelos grandes meios de imprensa, de que a mulher deve ser exposta enquanto um rentável produto dessa grande empresa chamada Sociedade Limitadamente Patriarcal.

Não que durante todo o resto do ano não predomine igualmente a linha editorial do essa-é-pra-comer-essa-é-pra- casar. Mas o Carnaval tem uma particularidade só sua: nele, tudo é “brincadeira”, nada pode ser levado a sério, muito menos uma discussão sobre quem historicamente oprime e quem sempre foi oprimido. Vale tudo. Menos, claro, dizer que é machismo, preconceito, essas bobagens esquerdopatas. De outro modo, como imaginar que a maior emissora de TV do país proponha uma enquete se as pessoas concordam ou não com o “beijo forçado” durante o Carnaval? Como diriam as respostas: que parte do “forçado” a Globo não entendeu? Em que outra época do ano isso pode ser considerado legal? “Mas é Carnaval… amanhã tudo volta ao normal”.

Vejamos então o que é “normal” na imprensa brasileira: quem já trabalhou ou trabalha em um grande portal de notícias conhece as regras dos editores da “home”: futebol e mulher (e, por mulher, leia-se: “mulher gostosa”). Não necessariamente nessa ordem. São essas as “coisas” que mais geram cliques e, portanto, mais rendem anúncios e, destarte, cobrem o salário daquela sofrida redação de jornalistas mal pagos. Na prática, isso significa: Mulheres de biquíni > Falta d’água. Jovens e bonitos atletas homens são prodígios, jovens e bonitas atletas mulheres são “musas”. Objetificar o gênero feminino, e isso vale também para as transexuais, é mandatório nas grandes redações. No que diz respeito à representação das mulheres, o jornalismo praticado por esses meios é uma infinita propaganda de cerveja.

Fora da internet e do impresso, nada muda: jornalista-homem de bancada de TV com um terceiro olho na testa é apenas um jornalista. Jornalista-mulher de bancada de TV, bem, antes de ser jornalista ela precisa ser modelo. Isso porque nem mencionei ainda as barbaridades daqueles infames programas policiais, que com frequência condena eloquentemente mulheres que matam ou ferem seus companheiros, sem citar que há anos elas eram violentadas pelos mesmos. Em tempo: não justifico uma violência pela outra, mas jornalismo pressupõe contexto. Aliás, é mesmo de jornalismo que estamos falando? A lembrar que no parágrafo 11 do artigo 6 do Código de Ética do jornalismo brasileiro, lê-se que  jornalistas devem: “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”.

Mas enfim, “Ética” é aquela disciplina cansada e besta que ninguém estuda mesmo.

A lógica machista nas redações parece um beco sem saída. É vendida em reuniões de pauta e insuspeitas conversas de corredor como a única opção. Ossos (e carnes expostas) do ofício. Não é. Primeiro, porque existem sim pessoas dispostas à reflexão em qualquer redação. Que se resgatem elas. Em segundo lugar, porque não é de mas-o-mundo-é-assim-mesmo que a História gira, nem do conformismo que o sufrágio universal aconteceu ou que a Lei Maria da Penha começou a vigorar. Nos acostumados a louvar essa resignação como uma característica tipicamente brasileira, quase como uma virtude da nação que acredita que “político é tudo igual”.

Pois bem, nós, feministas deste país, precisamos denunciar informalmente E formalmente os abusos cometidos por essa imprensa.  E nós, jornalistas deste país, precisamos ter vergonha na cara e parar de reproduzir um sistema permissivo com a violência contra mulheres, negros, comunidade LGBT e qualquer outra minoria. Lembrem-se que neste Carnaval, a cada “eleição de musa” que você publicar, ganhando o piso ou o teto da categoria, morre a única coisa que diferencia você de um psicopata: sua consciência crítica.

* Carol Almeida é mestra em comunicação sobre mídia tática, jornalista nas horas vagas, feminista nas horas úteis