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O 8 de março: Reflexões sobre calcinhas e soutiens

Por Fabiana Malha*

Mais um Dia Internacional da Mulher foi comemorado e mais uma vez assistimos, lamentavelmente, aos anúncios das lojas de departamento que contribuem para transformar o 8 de março, ou até mesmo o mês de março, também chamado “o mês da mulher”, numa grande liquidação de calcinhas e soutiens.

Em especial, gostaria de chamar a atenção para a campanha publicitária com a chamada Revele seus desejos, posta no ar desde o início desse mês pela Marisa, que é a maior rede de lojas de moda feminina do país, com unidades em todas as regiões e que pode ainda ser conferida via internet  através de uma chamada na primeira página e de um catálogo.

Nessa chamada podemos ler um texto que afirma que Na Marisa todo dia é dia da mulher, isso ao lado de uma modelo trajando peças íntimas. O que quero destacar aqui é a leitura mais superficial que o grande público, em especial, as mulheres por vezes desatentas, podem fazer de forma automática: que talvez o dia das mulheres será todo dia na medida em que as mulheres desejem e possam estar vestidas também da mesma forma, ou seja, com uma bela lingerie, pronta para seduzir naturalmente um homem.

Desse modo, a campanha, além de criar uma leitura falsa sobre o dia das mulheres, ainda colabora para reduzir o grande terreno da feminilidade numa luta incansável por mais um macho, onde tudo vale em nome do fim que deve ser atingido. 

Não entrando no mérito da questão acerca do bom gosto e da qualidade, além dos preços dos produtos oferecidos, até porque tenho que confessar que sou uma apreciadora e consumidora deste tipo de artigo, o que quero destacar é o esvaziamento do debate acerca das implicações históricas em torno da data.

Vale lembrar que a criação do Dia Internacional da Mulher tem ligação direta com as manifestações das mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito ao voto ainda no início do século 20, na Europa e nos Estados Unidos. Ou seja, trata-se da luta de mulheres por direitos sociais e políticos que, em 1977, como resultado, teve reconhecida pela ONU a existência do Dia Internacional da Mulher com o objetivo de lembrar as conquistas da luta feminista e de denunciar a discriminação por gênero e a violência contra as mulheres ainda existentes.

No Brasil, a situação ainda se torna um pouco mais delicada, especialmente neste ano em que temos a primeira presidenta mulher em exercício. Dessa maneira, num país onde a violência contra as mulheres, segundo números construídos a partir das denúncias de violência realizadas, está em crescimento, o silêncio nos dias que antecederam o Dia Internacional da Mulher em torno do impacto da eleição da primeira mulher para o cargo mais alto do executivo, com uma história de luta inegável, se torna mais alarmante.

Assim, proponho um questionamento acerca da premência de resgate do sentido original do 8 de março no que diz respeito ao movimento de reflexão e crítica sobre a situação das mulheres em nosso país de trabalhadoras, políticas, donas de casa, estudantes e tantas outras, salientando, nesse sentido, a necessidade de nós mulheres não aceitarmos esse aprisionamento que nos é oferecido no papel de simples consumidoras de mais uma peça de lingerie, ainda que nos deliciemos com mais uma peça a ser adquirida.

*Fabiana Malha é Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisadora na área de relações de gênero e integra o Núcleo de Estudos e Ações sobre Democracia e Direitos Humanos (NEADDH), da Universidade Federal de Pernambuco.