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Mostra Canavial: Cinema e Direitos Humanos, Memória e Camarazal

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Desde o último dia 5, o povo dos municípios da Zona da Mata Norte pernambucana tem ido às praças das cidades e lugares comuns dos povoados para observar o mundo, o próprio e o de todxs. Este é o cenário proporcionado pela Mostra Canavial de Cinema em Goiana, Condado, Timbaúba, Aliança, Vicência, Nazaré da Mata, Tracunhaém e Carpina. A mostra oferece para muitxs que vivem nesses locais a única oportunidade que têm de usufruir da experiência singular e coletiva que é o cinema, já que falta interesse tanto do mercado das salas de projeções quanto do poder público em oferecer equipamentos culturais que lhes permitam esse contato tão especial com a sétima arte. Confira aqui a programação.

E a equipe do Engenho Digital, responsável pela realização do evento, sempre vai além, selecionando produções locais, nacionais e estrangeiras de acordo com temáticas que lançam luz na tela e nas mentes das pessoas. Ocasionando o mesmo fenômeno na superfície da primeira e na profundidade das últimas: a reflexão.

cartazMostraCanavial2014Na sua quarta edição, o Canavial demonstrou total sintonia e sensibilidade com a atualidade e a História ao adotar como tema os Direitos Humanos. Neste ano que se aproxima do fim, completaram-se 50 anos do Golpe Civil-Militar de 64. As últimas eleições trouxeram uma acirrada disputa pela presidência do país, mas não só isso. Elas também foram marcadas pelo fomento de uma polarização na sociedade, o qual teve como protagonistas alguns setores que, se não colaboraram para a implantação da Ditadura outrora, conseguiram com ela as condições ideais para a consolidação de seus privilégios. A sensação de flashback, porém, não pára por aí. O discurso emanado pelas mais ferozes vozes dos descontentes com o resultado do pleito eleitoral teatralizam novamente a cena da “nação”, da “família” e dos “valores” ameaçados pela ascensão comunista, que supostamente pretende instalar o “homossexualismo” como norma e transformar hospitais em fábricas de abortos.

Se o cenário aguça a memória, vamos nos lembrar do ano passado. Quando se intensificaram mobilizações sociais que clamaram por mudanças nos problemas urbanos e denunciaram a nocividade do processo de transformações nas capitais que sediaram a “Copa das Copas”, apontando o papel do Estado em alimentar as máquinas do poder econômico privado ao travestir de “público” os interesses específicos desse setor. O “legado da Copa” não só somou bilhões às contas das empreiteiras, mas também grande quantidade de sofrimento humano. Este, imensurável. Gente que teve que abandonar a casa em que vivia há décadas para dar lugar a canteiros de obras e tendo que se virar com a “assistência” desdenhosa e negligente ofertada pelo Estado. Gente dos morros vivendo uma ocupação militar (como as das guerras) intensificada em nome da “paz” dos grandes eventos. Gente que foi sequestrada pela PM e sumiu. Gente que percebeu que nossa democracia está longe de garantir o direito básico de cidadãs e cidadãos se manifestarem sem que sua integridade física seja ameaçada pela violência arbitrária dos Batalhões de Choque. Gente que vê uma atuação quase nula da Justiça em relação aos indivíduos que comandam e atuam dessa maneira, mas observa a privação de liberdade de quem carrega uma lata de achocolatado ou um desinfetante.

Nós, do Centro de Cultura Luiz Freire, estaremos participando da mesa “Cinema e Direitos Humanos” que a Mostra Canavial promove na série de discussões do Encontro Arranjo Produtivo Local do Audiovisual da Mata Norte. O debate ocorrerá na manhã deste sábado, 22, das 10 horas ao meio dia. Mas outros espaços para o debate ainda terão lugar durante todo o dia, e também no seguinte, lá no Engenho Santa Fé, em Nazaré da Mata. À noite será a vez de assistir às exibições dos audiovisuais no Assentamento Pedro e Inácio. Já que estamos tanto exercitando a memória, vamos lembrar que o lugar já foi chamado Engenho Camarazal. Infelizmente, não são muitas as pessoas que se indignam ao ouvir tal nome. Graças à imprensa e à Justiça, ou à falta dela.

Como em tantos outros cantos que juntam muita terra nas mãos de poucos e em que estes promovem a exploração excessiva  trabalhadorxs (justamente por concentrarem propriedade e, claro, poder), o local tem sangue na sua história. As terras do antigo engenho já tinham sido consideradas oficialmente improdutivas e estavam em processo avançado de desapropriação pelo Incra. Mesmo assim, na noite de 9 de junho de 1997, um grupo armado atentou contra a vida de todxs ocupantes do acampamento do MST que ali se instaurara para pressionar pela agilização dos entraves burocráticos do processo. Entre os alvos das balas, estavam as pessoas de Pedro Augusto da Silva e Inácio José da Silva, que acabaram desaparecidos e tiveram seus corpos encontrados dias depois. Sua situação indicava que foram vítimas de atos monstruosos…. Ou melhor, inclassificáveis.

Não se pode falar precisamente dos fatos porque, apesar de existirem testemunhos que indicam até caminhonetes cheias de sangue, eles nunca se tornaram depoimentos por não terem sido devidamente investigados pela Polícia pernambucana. Ninguém foi sequer acusado do crime. Mas o assentamento resistiu, resiste e existe. E, se nos for permitida a pretensão de dar um sentido a histórias como essa, diríamos que ele existe porque há gente que quis nos mostrar que os sofrimentos, que acabam nos ferindo a todxs, também servem para provarmos a força da gente e daquilo que pode nos unir. Mesmo que a esperança presente seja orientada para colher um futuro mais justo, não podemos negar: a memória é uma arma.

  • Data: 22/11/2014
  • Horário: 10h - 18h
  • Local: Engenho Santa Fé, Nazaré da Mata - PE