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Conceição das Crioulas: tradição de lutas, também na comunicação

por Victória Ayres*

Mesmo no ambiente urbano, onde as interações humanas são mais mediadas pelos poderes e instituições públicas, há conflitos pela terra e pelo espaço. A 500km da capital de Pernambuco, na comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, esses conflitos são agravados, pois o poder público é ausente e por muito tempo negligenciou as necessidades da população de Conceição.

Com cerca de 6000 habitantes, a comunidade sofre com muitas precariedades apesar de já ter conquistado diversos direitos através da mobilização social, tais como a Escola Professor José Mendes, que antes possuía apenas ensino fundamental, e, em 2000, foi criada a Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC), com o objetivo de servir de fórum para a comunidade debater e reivindicar suas demandas.

As terras quilombolas foram ocupadas inicialmente por 6 mulheres nos séc. XVIII, que com o artesanato do algodão cultivado, conseguiram se tornar donas da terra, porém no início do séc. XX, fazendeiros começaram a invadir a região, ocupando espaços de forma ilegal. Com muita batalha, a comunidade hoje conseguiu se livrar de posseiros e adquiriu espaço para implementar praças, postos de saúde ou escolas. Hoje, as pessoas de Conceição têm consciência da riqueza cultural da terra e da memória das lutas que ela carrega, em especial as mulheres.

A comunidade valoriza as questões da mulher e o empoderamento feminino, sendo inclusive reconhecida internacionalmente pelas suas bonecas feitas da fibra de caroá, uma planta tradicional do Semiárido pernambucano. São 10 bonecas que representam 10 lideranças femininas fortes e relevantes na história de Conceição, algumas estão vivas e atuantes, enquanto outras já fazem parte da ancestralidade do povo quilombola. É notável que um grupo tão oprimido como Conceição das Crioulas seja tão forte politicamente e ativo nas lutas da comunidade.

Apesar de Conceição já possuir um histórico de lutas muito forte e valorizado dentro da própria comunidade, ainda carece de muitos serviços, sendo um deles a comunicação. Não estamos falando de sinal de TV aberta ou de rádios privadas, mas sim meios de comunicação com os quais a própria população de Conceição possa se comunicar e produzir conteúdo de forma a se identificar na mídia que consome.

Uma comunidade com dimensão de Conceição das Crioulas necessita de uma comunicação autônoma, para poder melhor transmitir as informações que sejam de interesse da sua população, necessita de uma comunicação comunitária de fato. Um show de teatro de rua, uma reunião para discutir pautas urgentes na AQCC, ou apenas contar as histórias dos mais velhos poderiam ser os usos de uma rádio comunitária, por exemplo.

Conceição das Crioulas deveria poder comunicar sua riqueza política e cultural para as pessoas que moram nas terras quilombolas mais distantes, nos sítios, ou mesmo para a cidade urbana mais próxima, Salgueiro. O Estado resiste em reconhecer comunicação como um direito e a radiodifusão como um bem público nas grandes metrópoles, o que deixa comunidades como Conceição ainda mais vulneráveis e carentes nesse aspecto. A luta quilombola deve ter como pauta também o direito à comunicação de qualidade e comunitária, algo que condiz perfeitamente com a postura das crioulas e crioulos de Conceição.

* estagiária do Centro de Cultura Luiz Freire