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Censura e exclusão no Vale do Goitá

José Mário Austregésilo*

Não há novidade no fato, verificado recentemente, de prática de censura na Radio Goitacaz FM. Estive no vale do Goitá com o objetivo de escrever um artigo sobre a utilização do Projeto Maleta Futura, do Canal Futura, naquela região, abrangendo os municípios de Glória do Goitá, Feira Nova, Lagoa de Itaenga e Pombos.  Entidades não governamentais e rádios comunitárias dos quatro municípios fazem uso dos materiais da Maleta Futura que, com algumas ressalvas, são vistos positivamente pelos grupos de jovens que os utilizam de várias formas em programas como PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, nos Centros de Multiplicadores de Educação e, ainda, no Giral  – Grupo de Informática e Ação Local   e Serta – Serviço de Tecnologia Alternativa, organizações não governamentais voltadas para o protagonismo juvenil no desenvolvimento  local. As rádios comunitárias da região têm importância fundamental nesse processo, embora nem todas essas emissoras ajam de acordo com o que preceitua a comunicação democrática

O protagonismo juvenil no vale do Goitá coloca-se como possibilidade de transformação da realidade adversa da região. Jovens adolescentes estabelecem alianças com parceiros na área da informática e tornam-se monitores, agentes multiplicadores de educação, entre outras ações educativas.  Ao coletar dados e observações sobre essa parceria, fui informado de que um programa educativo produzido pelo GIRAL, intitulado “De propósito” e emitido pela Rádio Comunitária Brasil FM, de Pombos, foi retirado do ar pela direção da emissora, por falta de pagamento, cujo valor mensal representava a quantia de duzentos reais. É de se estranhar a retirada do  programa do ar cujo conteúdo voltava-se para temas educativos e protagonismo juvenil. Muito mais grave que a retirada do programa do ar, foi o motivo da retirada: falta de pagamento. Na verdade, o valor de duzentos reais representava um apoio do GIRAL às rádios comunitárias da região. Interessante notar que se trata do mesmo tipo de conteúdo, agora censurado pela Rádio Goitacaz FM , de Glória de Goitá, cuja proposta temática é oferecer  pautas e artigos ligados à juventude e o desenvolvimento local.

Há uma forte influência do poder político local, no caso específico da Radio Goitacaz FM, bem como do poder religioso da igreja católica que se mobiliza em períodos de eleição da diretoria da emissora com  o objetivo de controlar as suas ações, enquanto o primeiro não permite críticas à gestão pública da prefeitura. Essas e outras são causas que impedem as críticas dos jovens à falta de políticas públicas e resultaram na proibição do uso dos conteúdos do Blog do jornalista Everaldo Costa pelo radialista Givanildo Silva, apresentador do programa Goitacaz Cidade que vai ao ar de segunda a sexta feira, das 12 às 13 horas.

Essas questões levam a refletir se as “mazelas” da grande mídia não estão sendo absorvidas de forma sutil pela radiofonia comunitária. Vale citar o texto bíblico: “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. As rádios comunitárias com  a palavra.

*Professor do Departamento de Comunicação e doutorando em Serviço Social da UFPE.