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“A Regra do Jogo” ainda é associar os Direitos Humanos ao crime

por Igor Alves*

Acabei de assistir ao primeiro capítulo da nova novela das nove da Globo: A Regra do Jogo. De cara, um personagem se sobressai pelo seu altruísmo e coragem. Ele é Romero Rômulo, que se destaca pela defesa dos Direitos Humanos e parece ser figura central na trama. O cara é referência no assunto de Direitos Humanos, dá entrevistas nos meios de comunicação, é convidado para programas sobre o tema, está disposto a ajudar ex-detentos em busca de regeneração, etc. Em uma das cenas, ele atua como advogado convencendo o juiz a dar liberdade condicional a um detento. A cena é tão bonita e humana que dá vontade de chorar.

Na última parte do primeiro capítulo, Romero, cujo filho é um policial que não concorda com suas ideias, é chamado a mediar um conflito com assaltantes fortemente armados em um banco cheio reféns. Corajoso, Romero entra desarmado para negociar com os sequestradores. Sai de lá com uma mulher e duas crianças. Ao final, os assaltantes são presos, todos os reféns libertados, nenhum tiro disparado e Romero Rômulo acaba ovacionado como herói na TV.

A narrativa é construída de forma a fazer as pessoas concordarem com as posições humanistas do personagem e mostra que, ao contrário do que diria o senso comum, os direitos humanos não servem para proteger bandidos, mas para proteger a sociedade. O personagem é claramente uma cópia do professor Diogo Fraga do filme Tropa de Elite 2, o qual, por sua vez, é inspirado na atuação do deputado estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSOL), possível e forte candidato à Prefeitura carioca nas próximas eleições.

É nesse momento de ovação ao super-herói dos Direitos Humanos que a trama mostra a verdadeira natureza do personagem com uma reviravolta incrível. Romero Rômulo é, na verdade, um psicopata sem escrúpulos, um monstro. A desconstrução do personagem e as ideias que defende até então começa com a revelação de que todo o assalto havia sido arquitetado por ele mesmo. Os assaltantes receberiam salário na prisão enquanto ele receberia o dinheiro do roubo e se firmaria como um herói para a sociedade. A sequência das cenas não só leva a audiência a desconstruir os ideais defendidos por ele, mas também a, com muita justiça, odiar o personagem. E ele é o próprio Capeta, tal qual o autor João Emanuel Carneiro fez questão de frisar na cena em que uma bondosa senhora nomeia seu contato no celular. O cara mora, sem ninguém saber, numa luxuosa cobertura e assiste a vídeos eróticos em que moças se exibem com trajes infantis enquanto toma banho numa banheira.

Em resumo, ao propor uma discussão sobre os limites entre o bem e o mal, a Globo escolhe retratar a extrema hipocrisia de “um defensor de Direitos Humanos” como a encarnação maior do Mal na novela.

Em um momento social delicado, no qual vozes que propõe o retrocesso reverberam na sociedade, é ali, no espaço em que o cidadão procura respirar dentro do caos do dia-a-dia, que a emissora da família Marinho se coloca, uma vez mais, como maior arauto do retrocesso. A vítima, neste caso, é o telespectador, a sociedade e a cidadania.

O cidadão, coitado, depois de um dia longo de trabalho, senta na frente da TV a procura de entretenimento… Nem se dá conta que aquilo é política!

* Igor Alves é ativista social e estudante de História.