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A produção independente, o dinheiro público, a emissora privada

Por: Ivan Moraes Filho

É motivo de celebração a estreia, pela Rede Globo Nordeste, da série documental “Patrimonio Vivo – na estrada do sempre”, uma co-produção da Rima, dos competentíssimos Ricardo Mello e Rafael Marroquim, com a produtora Luni, de Lula Queiroga. Uma viagem fantástica de Lucas Dos Prazeres pelo estado de Pernambuco, falando com 33  mestres em mestras da cultura popular e trazendo para as pessoas um monte de informação sobre a gente mesmo. Um produto audiovisual que realmente se destacará na programação de nossa televisão aberta. Fotografia linda, direção perfeita, montagem cuidadosa.

Dito isso, chamo a atenção para a forma com que essa série vai ao ar. Note o press release na página da emissora. Nenhuma referência aos produtores. Nenhum crédito pra quem fez o trabalho de planejamento e execução. Nenhum crédito ao menos ao Funcultura, fundo público que bancou 100% do projeto.

Naturalmente vão dizer que o crédito dos realizadores é dado ao final, com as marcas das produtoras e o obrigatório selo do Funcultura antes de a emissora “assinar” o produto. Ou seja: a emissora não produziu um minuto da série. Recebeu-a toda pronta, bancada com dinheiro público e realizada por produtores independentes. Não gastou um centavo. As marcas postadas ao final de cada episódio servem para a indústria do audiovisual. Quem atua no meio vai procurar saber e conseguirá se informar sobre quem fez e quem pagou. Pra Dona Maria e Seu José, porém, fica parecendo mesmo uma excelente iniciativa da maior emissora comercial do país.

Aconteceu agora com o Patrimônio Vivo. Aconteceu há pouco com Sete Corações, belíssimo documentário sobre os mestres do frevo, realizado pela Ateliê Produções, com direção de Andrea Ferraz. Na ocasião, até os créditos da produção foram eliminados e o filme transformado em série de três episódios.

Na falta de uma (ou mais) emissora(s) pública(s) que possa distribuir seus conteúdos, produtores independentes que desejam ver suas obras chegarem a cada vez mais olhos e ouvidos não têm muita alternativa senão ceder seus produtos a emissoras comerciais, que levam o crédito sem bater um prego num sabonete. A leitura é que, para ceder “de graça” a uma emissora pública que não pega em canto nenhum, melhor doar à comercial que tem mais audiência e que vai cumprir “melhor” o papel de distribuir.

Esse texto não pretende trazer uma polêmica de bem contra o mal. De maneira nenhuma. É perfeitamente legítimo o argumento da audiência, como é legítimo que uma emissora que utiliza concesão pública dedique parte de sua grade à produção independente. Seria mais digno, porém, que pagasse por esse conteúdo do seu próprio bolso.

Como um cabra que dedica boa parte de suas horas brigando para fazer com que a gente possa se fazer representar num sistema público que cumpra seu papel, gostaria que isso não fosse necessário.

Mas não custa saber direitinho quem é que tá fazendo. E quem tá pagando.