Por: Cristiano Ramos

Em meio a comerciais de bebidas, de cosméticos, de coberturas televisivas de Carnaval, de BBB e reproduções novelísticas de clichês, fica difícil prestar atenção nos programas que se propõem menos preconceituosos. E aí mora perigo. Após nove anos participando do Opinião Pernambuco, espaço de debates da TV Universitária (Recife), cinco deles como diretor, e mais esses dois anos já fora da emissora, faço um balanço de fracassos em minhas tentativas de colaborar com as demandas feministas.

O primeiro deles aconteceu quando montei discussão semanal de política, somente com convidadas. Nem toda consciência que eu imaginava ter evitou que recaísse na tentação do modelo: um macho que concede, que lidera a busca de expressão das mulheres. Por isso mesmo, falávamos do espaço delas na política, no mercado de trabalho e assuntos afins, como se não pudessem refletir sobre algo além de sua própria condição.

Pelo menos, em instante algum senti orgulho daquela iniciativa, não cheguei a ser tão ingênuo e me felicitar por algo que, no fundo, soava grosseiro. Mas quase isso, já que acreditei que deixar apresentadoras assumirem os debates de temas ligados a mulher resolveria o problema. Como se elas não estivessem tanto quanto ou até mais sujeitas à naturalização dos preconceitos, à constante submissão imposta por violências físicas ou simbólicas, como se não fizessem parte dessa indústria midiática de mastigar e reinventar modos de dominação.

Não raramente, por exemplo, alguma dessas apresentadoras reafirmou constantes biológicas, ratificou o sentimento de culpa que deve afligir as mães que conciliam a carreira profissional com obrigações domésticas, vestiu a responsabilidade pela desagregação familiar, pela perda da moral, dos princípios religiosos, e todo esse arsenal que ainda é veiculado incessantemente. No que colaborou o fato de não lhes oferecermos uma devida política editorial, um suporte de informações e postulações construídas anteriormente, em grupo, com a participação de fontes com experiência em lidar cotidianamente com tais dilemas.

Desnecessário até listar todas as ideias que me chegaram nessas nove temporadas do programa. Cito, porém, a derradeira, que foi a criação do Opinião Direitos Humanos, onde o próprio Movimento Nacional de Direitos Humanos proporia as pautas e convidados dos debates. Como suspeitava que as reuniões contavam com maioria de mulheres, e que mesmo os homens estavam mais bem preparados que eu e minha equipe da TVU, realmente achei que a questão dos gêneros receberia melhor tratamento. Óbvio que estava enganado outra vez. As lutas feministas ficaram em terceiro ou quarto plano, e quase não contávamos com mulheres à mesa.

Se, após tudo isso, restei convencido de algo é que geralmente escapamos de uma armadilha para atolar os pés em outra; que os meios de comunicação, ao assumirem postura teoricamente mais crítica e menos machista, podem ser até mais nocivos, posto que suas veias preconceituosas são menos visíveis. Meus erros são apenas amostras da imensa capacidade da mídia em disfarçar ou mesmo não perceber seus espólios mais negativos.

Já não carrego a petulância de especular sobre o que seja melhor para as mulheres, tampouco de tentar arrogantemente ver o mundo através de lentes femininas. Tudo que digo sobre o assunto agora são ecos (razoavelmente bem digeridos), repetições cuidadosas do que ouvi de maneira recorrente nas discussões empreendidas pelos próprios movimentos ligados aos direitos da mulher.

Porque não creio que nós, homens, possamos mais que isso: aprender a ouvir, a rever nossos conceitos do que seja respeito, e inclusive a aceitar, vez por outra, alguma agressividade, ao invés de continuarmos sendo os agentes da violência. Ou, resumindo, o que nos cabe é não atrapalhar – e assim teremos feito muito mais do que em décadas ou séculos.

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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