Análises


Um crime, uma cobertura sensacionalista: o caso Maria Alice na mídia pernambucana

Por Ana Veloso* e Nataly Queiroz**

O bárbaro assassinato da jovem Maria Alice, que ganhou a atenção da mídia pernambucana nos últimos dias, reafirmou a pertinência da Lei Maria da Penha, a estupidez da violência sexista contra a mulher e a necessidade de revisão das fórmulas jornalísticas de coberturas de crimes. A novelização do caso demonstrou o despreparo de boa parte dos noticiários locais e deu destaque a conotações machistas revitimizando a família da jovem, em especial sua mãe. Foram muitas linhas e minutos dedicados à cobertura do crime. Poucos, no entanto, se detiveram a uma discussão séria acerca da violência de gênero, diversificando fontes e fugindo da mesmice cega que empobrece as pautas, uniformizando-as.

No twitter, o Jornal do Commercio destacou “as motivações do estupro”, um título esvaziado de sentido lógico, mas totalmente sensacionalista, uma vez que compreendemos não haver “motivações” que justifiquem tal violência; na Folha de Pernambuco, uma entrevista com um familiar da vítima destaca, no título, a virgindade da jovem como a informação mais importante da narrativa e, como se Alice, por não ter tido relações sexuais, fosse menos merecedora de uma morte tão cruel do que outras, com vida sexual ativa.

As matérias publicadas ao longo da semana passada, com raras exceções, não problematizaram que, em 2014, pelo menos 249 mulheres foram assassinadas no estado. A maior parte das vítimas também vivenciou histórias de terror como a de Maria Alice, como a convivência com o medo, estupros, agressões físicas e mesmo decapitações. Temos, como infeliz exemplo, a história de Patrícia Pereira da Silvia, de 20 anos, moradora de Angelim, no agreste, violentada e morta pelo namorado há apenas três meses.

Ao invés de “interpretar a realidade”, o discurso midiático, sobretudo o veiculado pelos programas policiais que povoam as rádios e as emissoras de televisão pernambucanas, prefere reproduzir os requintes da crueldade empregada nos crimes, que demonstram a frieza e a monstruosidade da cultura machista, manifestada na imagem dos agressores, estes sim, e independentemente de qualquer coisa, criminosos. Contudo, também no jornalismo impresso, temos uma matéria veiculada pelo Diario de Pernambuco que descreve a personalidade supostamente psicopata do autor dos atentados contra Maria Alice, alegando que ele não demonstrou arrependimento durante o reconhecimento do local onde o corpo estaria escondido.

O que diferencia o jornalista de um narrador qualquer é a capacidade de racionalizar, selecionar os fatos, organizá-los e lançar mão do bom senso e da ética no trato das informações. Se não houvesse pena, prisão, a maior parte dos assassinos de mulheres também não se arrependeria. Diferentemente dos demais crimes, a violência de gênero contra a mulher se manifesta no exercício do poder do homem sobre o corpo, as vontades e a vida da vítima. Tudo isto já seria motivo suficiente para qualificar a abordagem, ao invés de esgotá-la com informações repetitivas, suposições e coberturas em tempo real de sepultamentos.

Para além da crise econômica, o Brasil vivencia uma crise ética que impacta na democracia. Como protagonistas deste processo, temos instituições caras ao “governo do povo”. A mídia, há muito definida como “os olhos e os ouvidos da população” e “a voz dos sem voz”, mesmo com a expansão das redes sociais, deveria se esforçar para continuar exercendo essas funções com a maestria de outrora. Em tempos de capitalismo tardio, o jornalismo da grande mídia parece vivenciar a esquizofrenia de defender sua relevância ao mesmo tempo em que a nega quando se vende como um produto perecível e vazio. Em Pernambuco, isto se evidenciou quando nos deparamos com mais uma cobertura novelesca de um feminicídio: a transformação da notícia em uma mercadoria.

Atuando de tal forma, a cobertura expõe lacunas e não oferece a real dimensão da situação vivenciada pelas mulheres pernambucanas que sofrem violência. Os veículos perdem a oportunidade de problematizar a objetificação do corpo feminino, as restrições à liberdade sexual e deixam de “traduzir”, para seu público, faces importantes da realidade experimentada pela maior parte da população local. Optam por não aprofundar as diversas formas de violência que são reeditadas pela reprodução de desvalores como o machismo, quando um apresentador de um programa de rádio, durante a apuração do caso, repetiu (com ares de justiceiro), por diversas vezes: “a culpa é da mãe da garota”.

A produção noticiosa em torno do caso Maria Alice faz parte do desafio necessário de repensar as fórmulas jornalísticas que resultam em coberturas esvaziadas de sentido, redundantes e sensacionalistas. Coberturas que, em lugar de colocar os crimes praticados contra as mulheres como fenômenos que precisam ser enfrentados pela sociedade e pelo estado, soam como parte de um folhetim que acaba por reproduzir o sexismo e não mobiliza a população para a defesa dos direitos humanos.

* jornalista, doutora em comunicação pelo PPGCOM/UFPE, professora do Departamento de Comunicação da UFPE e pesquisadora do Observatório de Mídia: Gênero, Democracia e Direitos Humanos da UFPE 

** jornalista e doutoranda do PPGCOM/UFPE)