Análises


Terreiros na mídia: o que você diz sobre mim é o que eu realmente sou?

A mídia é um espaço de discussão e representação de diferentes modos de ser e pensar. A partir de uma profusão de redes, o que ela constrói sobre a realidade espalha-se por centenas de grupos sociais, também distintos entre si. A notícia, o produto simbólico que circula por aí, é uma representação de algo ou alguém, que legitima valores – sejam eles positivos ou negativos.

No início do mês de março, veículos de comunicação locais e nacionais noticiaram a morte de uma professora, em um suposto terreiro de candomblé, no bairro do Cordeiro, no Recife. O que aconteceu é bem mais complexo do que esta simples descrição, mas vamos utilizá-la como ponto inicial de uma discussão sobre a representação que meios de comunicação fazem das religiões de matriz africana.

Religiões como o candomblé, a jurema e a umbanda dificilmente são vistas livres de preconceito e estereótipos, muito em decorrência de um estigma construído por séculos, que permeia o imaginário daqueles que pouco ou nada conhecem dos cultos, de suas práticas, crenças e história. Há pouco mais de cinco décadas, a prática do candomblé era proibida por lei; terreiros eram destruídos pela força policial, e seus adeptos sofriam perseguição frente à hegemonia de religiões cristãs, atreladas ao poder do Estado. Os anos de intolerância podem até ter passado (embora há quem diga que não). Suas marcas simbólicas, porém, continuam bastante vivas e visíveis.

A representação

Nas notícias veiculadas sobre a morte da professora, foi descrito um ritual, conduzido por três pessoas — duas delas denominadas por alguns veículos como “mãe” e “pai” de santo —, que a teria levado à morte. Dentre as matérias que pesquisamos, as publicadas no PE 360 Graus, no Tudo na Hora e no Portal Terra, sem hesitar, afirmam que a morte realmente ocorreu em um terreiro, tendo como um dos suspeitos a mãe de santo. Alguns textos utilizaram o termo “ritual de magia negra” associado à prática do candomblé, reforçando uma representação negativa da religião que não condiz com seu rito.

Na mesma semana em que a notícia foi amplamente divulgada, o NE 10 , antigo JConLine, noticiou que a Secretaria Executiva de Promoção da Igualdade Étnico-Racial do Estado e adeptos das religiões de matriz africana realizaram um encontro para discutir o fato em questão e se posicionarem sobre ele. Nesta matéria, o secretário executivo Jorge Arruda fala que recebeu muitas ligações de representantes de terreiros de candomblé, umbanda e jurema de Pernambuco, falando que não tinham o registro da mãe de santo nem do pai de santo envolvidos no caso.

Neste momento, o Diario de Pernambuco foi além em suas apurações. Fez uma excelente reportagem na qual diz que o terreiro não era reconhecido e esclarece, com falas de Mãe Elza —  representante do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial — e de Tarcísio Torres, os princípios do culto do candomblé e o erro ao associar o caso às práticas da religião.

Entretanto, por que ainda associar “ritual de magia negra” e o assassinato ao candomblé, como feito em outras matérias? Amauri Cunha, jornalista e filho de santo do Ilê Axé Airá Adja Osso, terreiro que fica no Alto José do Pinho, acredita que “o domínio do estabelecimento pelas religiões judaico/cristãs, sejam elas quais forem, sempre apontará a descendência africana como algo primitivo e selvagem. Daí o caminho curto para redações preconceituosas, elaboradas pela falta de conhecimento por parte de quem as redige”, opina o filho de santo ao analisar as matérias veiculadas sobre a morte da professora.

Amauri fala de conteúdos (saberes e julgamentos) construídos e compartilhados socialmente sobre a religião de ascendência africana que levariam ao preconceito, baseados em atributos que a marcam negativamente. Sendo a mídia nosso espaço público de discussão, é nela que se reflete e se propaga a representação social que se tem do candomblé, neste caso, uma representação advinda do estigma que pesa sobre a crença e que, infelizmente, pode gerar discriminação.

No que diz respeito às matérias analisadas, percebemos que as notícias publicadas no Tudo na Hora, n’O Dia Online, no PE 360 Graus e no Portal Terra amplificam esta representação depreciativa.

Mas nossos jornalistas não precisam ser reféns de estereótipos, muito pelo contrário. Enquanto mediadores de culturas e formas de viver diversas, devem lutar contra os modelos previamente criados e fixados. Nesta luta, o jornalista deve experienciar o encontro e a escuta. Seu olhar deve ser mais cuidadoso (de respeito e tolerância) ao se deparar e ter de escrever sobre mundos diferentes do seu. Amauri ainda relembra, “o jornalista devia, no mínimo, pesquisar sobre o que desconhece”.