Análises


Superficialidade informativa marcou a cobertura dos atos de 13 de março por jornais pernambucanos

por Débora Britto¹ e Renato Feitosa²

No último domingo, 13 de março de 2016, muitos brasileiros – fala-se em 3 milhões, segundo números da Polícia Militar – saíram às ruas, em sua maioria vestidos de verde e amarelo ou com camisas da CBF, para protestar “contra a corrupção”. Sob esse guarda-chuva couberam inúmeros cartazes com mensagens como “Fora Dilma”, “Somos Todos Moro” e até pedidos in english de intervenção militar aos parentes do Tio Sam.

Entre mortos e feridos, ao contrário do ditado, não parece que alguém terá vida fácil, incluindo quem acompanhou a cobertura dos jornais pernambucanos sobre as manifestações. Então, o que entrou e o que ficou de fora das edições dos principais veículos da imprensa local no dia seguinte, em 14 de março de 2016?

Cartazes e faixas incitando ódio e/ou agredindo a figura da Presidenta da República, saudações nazistas de brasileiros vestidos com camisas da CBF e a ovação ao deputado federal Jair Bolsonaro – que declarou durante a manifestação em São Paulo que, se eleito presidente, acabaria com o Ministério da Educação – elementos que deram o tom das manifestações e tiveram suas imagens acabaram propagadas pelas redes sociais. Porém, grandes agências de notícias e jornais não consideraram relevantes o suficiente para a caracterização dos atos que acabou impressa no papel.

Então, qual foi a imagem que essas coberturas que ignoraram a marcante manifestação de ideias antidemocráticas nas ruas, em pleno domingo ensolarado, imprimiram aos protestos deste 13 de março?

Nos dois maiores jornais pernambucanos, o Jornal do Commercio (JC) e o Diario de Pernambuco (DP), a maior parte da cobertura das manifestações, particularmente no âmbito nacional, foi relegada a matérias produzidas pelas grandes agências de notícia do país (Agência Estado e Folhapress no JC e Diarios Associados no DP). A exceção ficou por conta da Folha de Pernambuco, que publicou matéria de foco nacional e local com produção (aparentemente) própria. Já JC e DP resumiram-se a produzir matérias sobre as manifestações locais, com menor destaque para os atos pró-governo realizados no mesmo dia.

As reproduções das agências são marcadas por textos (seletivamente) bem descritivos dos acontecimento e que reforçaram em suas manchetes não só o evidente crescimento (ou “multiplicação”) dos protestos em relação a 2015, mas também a titulação de maior manifestação da história do país. “Ato em SP supera Diretas” diz o JC na manchete de uma matéria da Agência Estado e Folhapress – que não contextua a comparação feita entre os eventos – e “Recorde também em PE” é anunciado na sua cobertura local. Também se destaca referências à pressão popular que o evento imprimia sobre o governo de Dilma Rousseff. Na Capa Dois, que inicia a edição, o JC trouxe matéria da Agência Estado que já anunciava no seu “sutiã” (o texto que fica entre a manchete e a reportagem): “Multidão de mais de três milhões de pessoas (…) praticamente enterra discurso governista e petista de que o País estava dividido”. A afirmação em destaque não se origina da fala de nenhum manifestante, político, especialista ou colunista de opinião, é feita pela própria redação da matéria, a qual – ao menos em sua reprodução pelo JC – não se segue qualquer tipo de argumentação que sustente a unicidade de opinião supostamente constatada na população.

Chama a atenção, ainda, a completa ausência de um perfil traçado sobre do público dos atos, composto em sua maioria, segundo pesquisa, por um segmento de elite, masculino, pele branca, com renda acima de cinco salários mínimos (48% teriam renda maior que dez). As coberturas dão pouca voz a quem estava, de fato, nas ruas. O que se lê é uma descrição que salienta a predominância do verde-amarelo e de pautas que, supostamente, resumiriam o sentimento da multidão com “Fora Dilma”, “Fora, PT” e “Lula na cadeia”. Um protesto com um único alvo, é o que se vê nos jornais pernambucanos da última segunda-feira. Apesar disso, foi consideravelmente repercutido pela imprensa online de todo país, ainda no domingo, que a mesma manifestação teria, para surpresa de muitos, rechaçado a presença de políticos, supostamente aliados, que ajudaram a convocar o ato em São Paulo.

A revolta das mesmas pessoas nas ruas contra personagens do que vem sendo chamado de “oposição da direita tradicional” – como Aécio Neves e Geraldo Alckmin – não mereceu uma linha no Diario de Pernambuco, por exemplo. Importante notar que, diferentemente do JC, que teve sua capa completamente tomada por conteúdo das manifestações, o jornal destinou, na capa da edição da segunda-feira, espaço com foto e duas chamadas para matérias positivas a respeito de ações do Governo do Estado e da Prefeitura do Recife, ambas geridas pelo PSB. Partido que, atualmente, está na oposição ao Governo Federal e foi o último ao qual foi filiado Maurício Rands, um dos novos proprietários do DP, junto com seu irmão, Alexandre Rands, dono da Datamétrica, empresa de pesquisa que tem embasado as pautas do veículo.

As referências e homenagens prestadas nas manifestações ao juiz Sérgio Moro, como a nova cara da Justiça brasileira, têm relevante destaque nas edições dos três jornais de maior circulação em Pernambuco. O magistrado assumiu ares de salvador e encampou o papel que o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa negou em 2014 e meados de 2015: vestir a capa do justiçamento nas ruas dos revoltados com a corrupção brasileira. Nos jornais pernambucanos e nas matérias das agências nacionais por eles veiculadas, não houve espaço ou menção sobre o debate existente acerca da legalidade de algumas ações da justiça federal do Paraná, dos vazamentos das delações premiadas e de outros depoimentos, discussão composta por lados opostos que sustentam argumentos seguramente relevantes para serem informados aos leitores. Cabe notar que, em contraste com o nível descritivo e narrativo das matérias sobre as manifestações do dia 13 de março, a competência informativa dos textos é preterida. Apesar da oportunidade para sintetizar, textualmente ou por infográfico, o estado atual das pautas dos manifestantes, as matérias apenas mencionam o apoio ao impeachment de Dilma na Câmara Federal (que não se apresenta como “pedido de impeachment” no JC, por exemplo) e a cassação do seu mandato pelo TSE. Não são citadas acusações, justificativas e argumentos de processos que podem revogar a representação adquirida por alguém que se elegeu com os votos da maior parte da população do país. Enquanto isso, menções às delações premiadas, citações e indícios de investigações são apresentados como componentes naturais de um quadro que se define por narrar fatos, mas seleciona informações para fazer isso. Assim, as sentenças e a justiça das vozes que foram às ruas no último domingo acabam impressas com selo de verdade, na folha do jornal.

Do outro lado da história, coube ao JC, numa cobertura de cinco páginas, reservar a última para a repercussão dos atos pró-governo na mesma data. Já o DP, de três páginas do Caderno de Política, apenas uma matéria e uma nota informam sobre atos caracterizados como de apoio ao governo. O espaço menor também subtraiu a relevância da descrição de detalhes destes atos. Faixas e cartazes com frases contra um suposto golpe institucional não foram reproduzidas nas matérias, exceção se dá na citação da fala de um manifestante. No DP, a invasão do perfil do deputado federal Jean Willys nas redes sociais, com mudança de fotos para apoiar candidatos de extrema-direita, ganhou uma nota na edição.

¹ Jornalista e integrante do Centro de Cultura Luiz Freire.
² Cientista social e integrante do Centro de Cultura Luiz Freire.