Análises


Que tal um “mea-culpa”, Diario de Pernambuco?

por Samarone Lima*

Há uns sete meses, as Organizações Globo fizeram um “mea culpa” sobre a atuação durante a Ditadura que comandou o País de 1964 a 1985. No dia 30 de março, foi a vez do jornal “Folha de São Paulo” publicar um editorial na mesma linha. Diz que o jornal “deveria ter rechaçado toda violência de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais”.

Mas não o fez. Muito pelo contrário. Foi, como a maior parte da Imprensa do Brasil, uma “arma essencial da ditadura”, como bem diz o Jânio de Freitas.

Segundo a Folha, seus dirigentes agiram “como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”.

Melhor transcrever o parágrafo inteiro, que é autoexplicativo:

“É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”.

Uai, então para que fazer um mea-culpa, se fez o melhor ou o “inevitável”?

Não há mea-culpa nenhuma. Uma coisa é agir como lhe pareceu melhor, com as inúmeras vantagens econômicas que o regime ofereceu aos grupos de comunicação. Outra é citar o “inevitável naquelas circunstâncias”. Houve uma adesão maciça da Imprensa ao Golpe. Só a partir de 1979, com as lutas pela Anistia, alguns pisaram no freio e viram que o vento soprara para o outro lado.

Mesmo que esses pedidos de desculpas venham carregados de autopublicidade e tentativa de reescrita da história, creio que está na hora de um dos principais jornais do nosso estado, o Diário de Pernambuco, fazer sua mea-culpa.

Sua participação no período militar é de envergonhar qualquer jornal. O Diário conseguiu se antecipar, em dois anos e cinco meses, a promulgação do AI-5 (Ato Institucional Número 5). Pedia despudoradamente uma ditadura sem “panos mornos”, em um editorial na primeira página. Somente em dezembro de 1968, o então ministro Jarbas Passarinho diria a famosa frase:

“Senhor presidente, às favas os escrúpulos”.

O Diário disse isso antes, na capa.

Explico.

No dia 25 de julho de 1966, uma bomba explodiu no saguão do Aeroporto dos Guararapes, pouco antes da chegada do marechal Costa e Silva. Duas pessoas morreram, entre elas, o jornalista Edson Régis de Carvalho, secretário de administração do governo Paulo Guerra. Assinava a coluna Política e Políticosdo Jornal do Commercio. É um dos capítulos mais nebulosos do período, com a autoria não totalmente esclarecida e cheia de mistérios. Estou escrevendo um livro sobre isso.

No dia seguinte (26/07/1966), o Diário publica seu editorial, intitulado “Mão forte para aniquilar a anarquia”.

Isso mesmo. A palavra é “aniquilar”. Os militares só conseguiriam “aniquilar” os adversário, como uma política de Estado, a partir de 1969, com a chegada de Médici ao comando. Em 1973 quase todos os adversários já tinha sido aniquilados. Muitos são desaparecidos. O Dops do Recife teve uma atuação de destaque neste aniquilamento.

Com rara franqueza, o jornal apontava, em julho de 1966, os caminhos que os militares deveriam assumir:

“O que, porém, deve ficar bem claro, desde já, é que o governo revolucionário tem o dever impetuoso de aceitar o desafio anti-revolução – partir de onde partir, abandonando esta linha de tolerância, de panos mornos, que, em derradeira análise, soam como fraqueza”.

Toda a costura política das oposições, movimentos sociais, sindicatos, igreja, até dissidentes das próprias forças armadas – que vinha sendo expurgados -, para que o país voltasse rapidamente para a democracia, não mereciam a menor atenção.

“Na hora em que tanto se luta pelas “garantias” constitucionais, temos de cobrar dos responsáveis por estas torpezas, contas severas”.

O recado mais grave, naquele momento, era a utilização, pela primeira vez de um verbo oriundo do latim – “vindicare”. Vingar.

“Em nome do sangue derramado no Recife, que como o de Abel, clama por vingança. Temos de pedir conta aos apátridas do PC, aos inocentes úteis, aos que, direta ou indiretamente, vêm sendo, em toda parte, linhas auxiliares da anti-revolução”.

O editorial parece ter sido escrito por um militar, dentro de um quartel.

“A hora não é mais de transigências nem tibiezas, pois talvez seja isso que esteja acumulando os mastins da subversão e da desordem”.

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Vejo a edição do dia 1/04/2014, do mesmo Diário de Pernambuco. A manchete ocupa a página inteira:

“Há 50 ANOS NUNCA MAIS”.

A foto é simbólica. Uma fileira de soldados apontam seus rifles para alguma multidão que não vemos. Parece que estão na rua da Aurora.

O texto, logo abaixo da foto, diz o seguinte:

“Hoje faz 50 anos que os militares tomaram o poder no Brasil instaurando uma ditadura que durou quase 21 anos. Uma data para não ser comemorada, mas sim para ser lembrada sempre e nunca mais repetida. Para contar essa história, nossos repórteres consultaram arquivos, buscaram documentos e ouviram especialistas à procura de histórias para traçar um retrato desse período sombrio”.

O caderno tem 12 páginas, é muito bom, mas em apenas um momento se refere à natureza civil-militar do Golpe. É no texto de Vandeck Santiago.

Sobre isso, pouco se fala, escreve ou reflete.

Para se manterem hegemônicos durantes 21 anos no poder, os militares contaram com inúmeros parceiros, colaboradores, gente que deu sustentação por interesse pessoal, político, econômico, ou porque era o momento mesmo do oportunismo.

Os jornais, que são empresas de comunicação, ajudaram de forma intensa a chegada e perpetuação dos militares ao poder. E ganharam muito dinheiro com issso também. Sinto muito, Folha de São Paulo, mas foi como lhes pareceu melhor mesmo, não porque era “inevitável naquelas circunstâncias”.

Diário de Pernambuco ajudaria muito a “contar essa história” se, cinquenta anos depois, consultasse seus próprios arquivos, suas muitas capas e reportagens de apoio ao regime, seus editoriais que clamavam por vingança, e admitisse, tardiamente, que fez parte de uma vasta rede de sustentação ao regime.

O período sombrio que o Brasil viveu, de 1964 a 1985, teve, também, comportamentos sombrios.

* Samarone Lima é jornalista e editor do blog Estuário.