Análises


Jornalismo Denorex, saúde e educação

denorexnassauPor: Ivan Moraes Filho*

Quem acompanha o OmbudsPE e que tem aprendido a ler por entre as linhas do noticiário de jornal não estranhou tanto assim o conteúdo da página A6 do caderno Local do Diario de Pernambuco de hoje. É bater o olho, ler um par de linhas, verificar as fotos, os anúncios e pronto: eis um exemplo clássico do que costumamos chamar de “Jornalismo Denorex”, aquele que parece, mas não é.

A reportagem (sic) em questão, intitulada “Compromisso com a saúde”, faz parte de uma série chamada “Guia de Profissões 2015”, que pretende ir até o dia 1 de abril (verdade). Clara ‘dobradinha’ entre a redação e departamento comercial do jornal, a primeira matéria foca nos cursos de medicina e enfermagem, maiores vedetes da área de saúde. As fontes consultadas são professores e alunos da Uninassau, do grupo Ser Educacional, mesma empresa que assina os dois únicos anúncios da página,  sendo um ‘selo’ no início da primeira retranca e um ‘rodapé’ ao final da página.

Entre algumas informações inofensivas e outras obviedades como “nas duas profissões há o compromisso com a saúde e o bem estar do paciente” há algumas pitadas de propaganda explícita. Ao citar os lugares onde se pode cursar Enfermagem, por exemplo, o texto informa: “Ao todo (no estado), 29 instituições de ensino superior oferecem a graduação. Só no Recife, são 14 unidades de ensino, como, por exemplo, o Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau) e a Faculdade Joaquim Nabuco (FJN)”. Só faltou dizer que ambas as instituições pertencem ao mesmo grupo Ser, que patrocina a existência da matéria.

Se fosse parte de uma série que pretende realmente elucidar estudantes a escolher uma carreira, ou mesmo uma universidade, não seria interessante – por exemplo – informações sobre preços de cursos, número de vagas, avaliações oficiais dos cursos, informações e dados sobre o mercado de trabalho de cada uma das profissões? A gente, humildemente, acha que sim.

Ainda não tem certeza de que estamos falando de um típico caso de “Jornalismo Denorex”? Mais dois indícios mandam a dúvida pro espaço:

Onde é que já se viu uma matéria especial, mais ainda fazendo parte de uma série que terá a duração de uma semana, vir sem a assinatura do/a repórter?

Procure o texto na página do Diario de Pernambuco na Internet. Fosse o “guia” parte de uma série de fato jornalística, será que não teria um lugar de destaque no portal? E porque não se encontra o texto em lugar nenhum da versão eletrônica?

Utilizar o “Jornalismo Denorex” é crime? Podemos responsabilizar jornal ou jornalista por isto? Claro que não.

Mas o Código de Ética da Associação Nacional de Jornais (ANJ), órgão que reúne os próprios empresários de veículos impressos, em seu artigo 9, nos parece claro:

“Os jornais filiados à ANJ se comprometem a diferenciar, de forma identificável para os leitores, material editorial e material publicitário”.

Usando a mesma fonte gráfica, o mesmo tipo de diagramação, a mesma identidade visual e um texto que segue parâmetros estéticos idênticos aos do jornalismo, será que o Diario de Pernambuco está cumprindo esse preceito? Ainda de acordo com a ANJ, cabe ao próprio jornal “adotar mecanismos e critérios de autorregulamentação, e que sejam de conhecimento do seu público”.

Ou seja: você só pode reclamar ao próprio DP e esperar que em suas próximas edições, o tal “Guia de Profissões 2015” venha ao menos com a velha e discreta margem onde se possa ler “informe publicitário”.

*Jornalista, integrante do CCLF