Análises


Escutas na imprensa pernambucana: sensacionalização e construção de uma realidade de “dois lados”

por Débora Britto*

Desde que o Brasil é um país, sempre esteve dividido.

Nós chamamos essa divisão de pluralidade – um conceito que também deve orientar não apenas o jornalismo, mas toda a radiodifusão.

A Democracia nunca foi um modelo concebido para a unicidade, mas pela diversidade de ideias e liberdade para defendê-las. Nossa infelicidade é que o modelo da mídia brasileira não foi concebido para a democracia.

A história do que acontece agora no Brasil está sendo contada por poucas vozes aos milhões que as escutam pelos canais de tevê, jornais, sites e revistas. Nunca existiu imparcialidade no Jornalismo. O que perseguimos é a diversidade de ideias, de vozes e honestidade no posicionamento de veículos de mídia ao apresentar os fatos à população.

Na noite da quarta-feira, 16 de março de 2016, 52 anos após o Golpe Civil Militar que mergulhou o país em 21 anos de ditadura, o Jornal Nacional da Rede Globo e diversas outras grandes empresas de mídia levaram às TVs e aos jornais de milhões de brasileiros mais um capítulo da sua cobertura sobre a crise política brasileira.

Em momentos como o atual, torna-se perigoso o abandono da reflexão pela classe jornalística sobre a responsabilidade do seu papel na função de informar e de dar meios à sociedade para pensar sobre os acontecimentos. Ao mesmo tempo, é fundamental que esta sociedade entenda que as empresas de comunicação têm donos e sócios, os quais – por sua vez – têm interesses, opiniões e posicionamentos políticos próprios. Portanto, ler e assistir aos jornais é um exercício de investigação, no qual nem todas as peças de um quebra cabeça são apresentados. O modo que a figura final será apresentada e as peças que ficam de fora dependem de quem está controlando o jogo.

Com o país mergulhado em um estado de caos político, um jornalismo que acende o fósforo e o joga em um barril de pólvora é não apenas irresponsável, mas algo que se afasta fundamentalmente da prática ética da profissão. Os resultados, sem dúvida, serão cobrados no futuro.

Com quantas acusações se constrói um “culpado”

Observar páginas inteiras dos jornais na manhã seguinte que levantam, exploram e expõem uma tese sem questionar, sem dar o devido espaço às diversas vozes e posicionamentos que compõem o debate a respeito do fato noticiado, é mais do que motivo para repensar o papel do Jornalismo e dxs jornalistas.

JC-capa-17032016Na manhã da quinta-feira, 17 de março, as capas de jornais apresentavam a transcrição das conversas entre a presidente da República com o ex-presidente e atual ministro, a qual, em si, não apresenta prova de qualquer fato que incrimine ou isente quem quer que seja. “País em Choque”, no entanto, é a manchete do jornal de maior circulação de Pernambuco.

Chama a atenção a disparidade de espaço e representação destinados aos “contras” e os “prós” “Lula & Dilma”. Outros posicionamentos não chegam sequer a ser abordados nas edições.

Aos números:

O Diario de Pernambuco trouxe, em cinco páginas, 12 matérias e 5 notas das quais 9 matérias e 3 notas destacam posicionamentos contra “Dilma”, o “PT” e “Lula”;

Jornal do Commercio: 9 matérias, das quais apenas uma é de produção local – possível consequência dos sucessivos passaralhos na sua redação. Do total das notícias, 5 têm abordagem que prioriza falas “contra”.

A Folha de Pernambuco traz uma charge na contracapa da edição representando a atual presidente e o ex-presidente do país queimando a faixa presidencial. Com 13 matérias, 10 trazem os argumentos “contra”. A edição reserva espaço para uma matéria que apresenta posições opostas sobre a legalidade dos grampos, única em que se faz presente o “contraditório”.

Contudo, o espaço de fala para o contraditório e exposição da defesa ficam em segundo plano nas páginas do Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. O posicionamento do Governo Federal, em nome da presidente Dilma, e a resposta do PT são representados com tom belicoso com palavras como “contra-ataque” e “ameaça” que inflam o sentimento de terror e  acirramento político.

g4615A escolha de verbos e palavras como “ameaça”, “flagrados”, “surpreendidos” são exemplos de como circular e determinar um espaço obscuro para referências ao PT, à Dilma e a Lula. O famoso e tão discriminado termo “suposto” é reservado apenas para quem está no afronte ao Governo Federal.

No Jornal do Commercio, transcrições dos grampos telefônicos são apresentados como em um quebra-cabeças em que ao jogador não é permitido sequer conhecer o contexto em que aconteceram as conversas. Uma estratégia para isso é recortar trechos e apresentá-los isolados, com sentido direcionado, no caso, para a sentença. Se um veículo opta por apresentar tal informação desse modo, a intenção de enviesar a interpretação do leitor é difícil de ignorar.

* jornalista e integrante do Centro de Cultura Luiz Freire.