Análises


Enquete sob medida

“Maioria dos internautas a favor de que Kleber Mendonça não participe do governo interino de Temer”, diz o título de matéria publicada nesta sexta-feira no portal JCOnline, sobre enquete realizada pelo mesmo portal sobre a “polêmica” do cineasta que, em Cannes, protestou contra o golpe sofrido pela presidenta Dilma Roussef. Além de realizador, Kleber também coordena os cinemas da Fundação Joaquim Nabuco, cargo que no governo provisório está sob o comando do também pernambucano Mendonça Filho (DEM). Antes de mais nada, cabe uma observação: não é a “maioria dos cineastas” que quer a exoneração de KMF, mas sim a maioria daqueles e daquelas que entraram no portal do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação e escolheram participar da enquete.

Alguns dias atrás, logo depois do protesto que ganhou as páginas de diversos jornais do mundo, a Folha de São Paulo foi a primeira a questionar o cargo do cineasta. Questionando o MEC, que aparentemente não tinha planejado represálias ao protesto, a Folha saiu com uma matéria intitulada “Ministério vai decidir sobre cargo público do diretor de Aquarius”.

Diferente da Folha, o alinhamento do SJCC com Mendoncinha não é novo. Tanto que foi com um sorriso nos lábios que Eduardo Campos entrou na redação do Jornal do Commercio, semanas depois de ganhar a eleição para governador e derrotar Mendonça Filho. Seguido por vários diretores, colunistas e repórteres de economia e política, olhava para os lados e acenava – nas entrelinhas estava claro o que aquele riso dizia: vão ter que se curvar a mim. Campos passou a campanha levando porradas do JC, que queria eleger Mendonça governador. O atual ministro da educação teve apenas 34, 64% dos votos. Campos, 65,36% ( 2.623.297 votos). Eduardo tornou-se um nome poderoso – e mesmo após sua morte, ainda é.

O JC passou a pegar “mais leve” com Campos e sua equipe, até para manter as boas relações e os contratos publicitários com o governador da vez. Enquanto isso, Mendonça nunca parou de sonhar com uma cadeira de espaldar mais alto: foi galgando mais espaço,  principalmente frente ao cenário conservador que se desenhou na política nacional. Em cada passo, tinha ao seu lado a assessora de comunicação Nadia Ferreira, que estava na sua nomeação como ministro. Nadia é casada com Laurindo Ferreira, diretor de redação do Jornal do Commercio, JC Online e NE 10.

As relações entre o JC e a família Mendonça, porém, são mais antigas ainda. Basta dizer que o falecido político José Mendonça Bezerra, pai do atual ministro, chegou a ser sócio do empresário João Carlos Paes Mendonça (proprietário do SJCC) em emissoras de rádio e televisão.

É esse conglomerado de mídia que não vê problema de colocar em enquete o cargo do diretor Kleber Mendonça Filho, que, aliás, contribuiu durante anos com a escrita daquele jornal, tendo sido crítico de cinema do então Caderno C. O JC, em nome de aproximar-se mais do poder – e de servir, como lembraria Umberto Eco em seu último livro, de “cão de guarda” jornalístico para o ministro da educação – se presta a esse papel materializado nessa enquete. Não há problema em defender interesses próprios – o sistema é uma empresa e disso todos sabem. Mas ao defender interesses próprios de maneira a solapar a inteligência de quem lê, a omitir sua relação com Mendoncinha, e ao usar o nome de KMF para mostrar-se ainda mais dócil ao poderio de Brasília, o JC põe em xeque uma história batalhada e criada por vários grandes nomes que ali passaram – e que ali estão.