Análises


Depois do DP, jornalismo-Denorex chapa branca ataca na Folha de Pernambuco

Nas décadas de 1980/90, um shampoo anticaspa ficou bastante conhecido no Brasil. Em comerciais de tevê que eram repetidos ad nauseum nas emissoras nacionais, o fabricante do Denorex dizia que seu cosmético “parece remédio, mas não é”. Pois em Pernambuco está ficando bastante comum um produto de comunicação bastante semelhante. É o jornalismo-denorex. Depois do caderno especial “Pernambuco cresce com planejamento” publicado no Diario de Pernambuco em 19 de março que tece loas ao governador Eduardo Campos, dois dias depois foi a fez da Folha de Pernambuco beijar a mão do gestor.

O título do “caderno especial” de 30 páginas já diz tudo: “Gigante pela própria natureza”, numa referência clara e óbvia ao hino nacional. Detalhe: até os tubarões que infestam nossos mares sabem que o governador é candidato a presidente da República. Se no caderno do DP os elogios se limitavam à passagem de Campos pelo governo do estado, a “homenagem” da Folha vai além. Joga confetes na habilidade política do governador, ressalta sua estratégia em receber Marina Silva no PSB e ainda traça um perfil da vida política do neto de Miguel Arraes.

O jornalismo-denorex funciona assim: embalados em textos, diagramações, formatos e imagens que remetem claramente ao jornalismo, tratam-se, na verdade, de anúncios publicitários. A prática é corriqueira, muitas vezes, em “cadernos especiais” que elencam as maravilhas de um empreendimento imobiliário, de um setor da economia (educação, saúde, etc), por exemplo. Normalmente a iniciativa parte do departamento comercial do veículo de comunicação, que encomenda os textos e orienta seus contatos comerciais a venderem os anúncios para o segmento específico. Por exemplo, um caderno vai dizer as maravilhas do turismo num determinado lugar e o “especial” vem recheado com anúncios dos hotéis e restaurantes do destino escolhido.

O código de ética criado pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ) é claro quando informa que seus associados têm que separar claramente o conteúdo editorial do publicitário. Acontece, porém, que não há mecanismos disponíveis para que se cobre a aplicação desse documento. Ou seja: cabe aos jornais definir as formas de aplicação do código – ou não.  Com isso, o jornalismo-denorex  não é  ilegal e na maioria dos casos o leitor não pode fazer muito mais do que postar uma esculhambação nas redes sociais, cancelar sua assinatura ou enviar uma cartinha raivosa aos editores. O jornalismo-denorex, na maioria das vezes, é apenas feio.

O mesmo, porém, não se aplica aos recentes casos que acometeram os jornais pernambucanos por dois motivos: estando o governador pré-candidato à presidência, cadernos publicitários disfarçados de jornalismo são claramente uma forma de campanha antecipada – mesmo que o governador-candidato não tenha tido participação direta na elaboração dos cadernos. Mais que isso: Parte significativa dos anúncios que bancaram as publicações partiram de prefeituras do interior e seus prefeitos. E o conteúdo dessas peças publicitárias, que “agradecem” ou apenas enaltecem o governador, violam claramente a Constituição, em seu artigo 37, § 1º,  que limita a publicidade pública a mensagens educativas, informativas ou de orientação social.

E enquanto as autoridades do Ministério Público e da Justiça não percebem esse truque e não começarem a combater o uso de recurso público para o patrocínio de publicidade disfarçada de jornalismo, eleições vão se tornando cada vez mais parecidas com comerciais de shampoo.