Análises


Cobertura discreta de atos do MTST-PE resgata velha relação da mídia com o mercado imobiliário

por Sofia Lucchesi*

Na madrugada do dia 2 de abril, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de Pernambuco – MTST-PE – realizou sua primeira ação de ocupação e reivindicação de moradia popular e digna na cidade do Recife. A iniciativa ocorreu numa área abandonada, ao lado do Rio Capibaribe, às margens da BR 101. O terreno vazio foi destinado pelo Governo do Estado às obras de navegabilidade do rio – um dos projetos de mobilidade urbana que deveriam ser entregues para a Copa de 2014, mas se encontra parado desde então.

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A ocupação ganhou o nome de “Nova Canudos”, referência ao histórico movimento de resistência popular do final do século XIX. Um terreno público, que deveria ter a função de beneficiar a população e estava entregue às moscas, foi ocupado por gente que luta pelo direito à moradia digna.

Porém, em menos de 24h, as famílias ocupantes – que já chegavam a 300 – tiveram que deixar o espaço sob ameaça de uso da violência da Polícia Militar pelo Governo do Estado. Deliberação tomada pelo Executivo por conta própria, sem que qualquer decisão judicial a amparasse.

O fato curioso é que, segundo o MTST-PE, a operação que mobilizou um efetivo de 19 viaturas da Polícia Militar, dois ônibus do Batalhão de Choque e uma caminhonete da Polícia Rodoviária Federal foi acompanhada de perto por membros da família Souza Leão, que reivindicavam ser proprietários do imóvel, embora as informações sejam de que a área pertence ao patrimônio público e nenhum documento que provasse o contrário tenha sido apresentado na ocasião ao movimento.

Entre três principais jornais pernambucanos, apenas o Jornal do Commercio noticiou o fato em sua versão impressa – com uma nota de nove linhas, que dispensou as informações sobre a quantidade de famílias ocupantes e a chegada do efetivo armado ao local.

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COBERTURA ONLINE e A VELHA NECESSIDADE DO ‘LÍDER’

Os grandes portais pernambucano na Internet – cujos donos são, em sua maioria, os mesmos dos jornais de maior circulação no estado – chegaram a noticiar a ocupação do MTST, sendo que o “troféu vergonha alheia” ficou, mais uma vez, com o Diario de Pernambuco, que apagou uma publicação sobre o evento pouco tempo depois de levá-la ao ar em seu portal. Entre as coberturas online, destaca-se a do portal Leia Já, que se dedico a fazer uma matéria mais completa, abrindo espaço de fala para que ocupantes explicassem as razões de reivindicarem o direito à moradia naquele terreno em específico.

Ainda sobre a matéria do LeiaJá, chama atenção a forma como da matéria apresenta um dos integrantes do movimento, identificando-o como “líder”. Tipo de coisa recorrente nas coberturas feitas pela imprensa de pautas que envolvem movimentos que adotam uma linha organizativa colaborativa e horizontal, como expressa o MTST-PE ser o seu caso. Para, Otho Paiva, o integrante do movimento apontado como líder pela reportagem, tal vício jornalístico pode ser analisado como um reflexo da hierarquia tradicional presente nas próprias redações dos jornais, que acaba por condicionar o entendimento e a competência informativa de jornalistas. “O que aconteceu nessa matéria é a reprodução de um sistema baseado nas relações verticais. Quando um movimento se coloca com uma coordenação horizontal, a mídia sente a necessidade de apontar um líder”, afirma o militante.

A QUESTÃO DA MORADIA E A MÍDIA

Na quinta-feira seguinte, 8 de abril, centenas de famílias do MTST e apoiadorxs do movimento realizaram um ato simbólico em comemoração à ocupação na Praça do Derby. Jornal do Commercio, Diario de Pernambuco e Folha de Pernambuco julgaram que o fato não merecia sequer menção nas suas edições do dia seguinte (8/4). A título de curiosidade: os três jornais noticiaram a construção de novo hospital particular pela rede Hapvida – última detentora do DP antes dos irmãos Rands assumirem o controle do veículo.

Desde 2010, os processos de remoção da moradia de comunidades pelo Governo de Pernambuco se intensificaram devido à realização da Copa do Mundo em 2014. As “ações de limpeza”, como ficaram conhecidas, deixaram centenas de famílias à espera dos prometidos conjuntos habitacionais, cujas construções estão paradas desde a gestão de Eduardo Campos. A ocupação Nova Canudos evidenciou uma série de interesses que, mais uma vez, confundem as relações entre público e privado. “A avaliação que fizemos foi que a Nova Canudos repercutiu muito pouco na grande mídia, o que revela os vários interesses em jogo, como o impasse do governo do estado em relação à obra paralisada e os falsos proprietários do terreno que acompanharam a ação ao lado da polícia e de seus seguranças”, analisa Rud Rafael, integrante do MTST.

O terreno da BR 101, abandonado pelo Governo do Estado, como outras obras destinadas aos megaeventos, é mais um exemplo das falsas promessas de melhorias em infraestrutura e mobilidade urbana às custas, não apenas do erário público, mas – principalmente – do sofrimento e fragilização das condições de vida das milhares de pessoas que foram removidas dos lares que habitaram por décadas. A invisibilidade enfrentada por essas pessoas, que agora se organizam em movimentos sociais, da mídia tradicional explicita a forma como a questão da moradia é moldada pela imprensa: como mercadoria, atendendo a interesses privados da clientela de empreiteiras que anunciam constantemente seus empreendimentos nos espaços publicitários dos jornais. “Quando se abre espaço para esses movimentos na mídia, o viés das notícias costuma ser o de criminalização. A Copa deixou centenas de família sem-teto e a questão do déficit habitacional, apesar de urgente, raramente é problematizada à altura do seu devido interesse público”, avalia Rud Rafael.

* Sofia Lucchesi é graduanda em Jornalismo, integrante e estagiária do Centro de Cultura Luiz Freire