Análises


Capas do Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco sobre atentado em Paris expõem mazelas dos próprios jornais

Por Victória Ayres*

Na quarta-feira (7), um famoso jornal satírico francês, o Charlie Hebdo sofreu um atentado que matou 12 pesssoas, entre elas, cartunistas e jornalistas importantes do periódico. O crime tem sido noticiado como um ato de terrorismo fundamentalista islâmico, pois os criminosos ao atirarem contra as vítimas com seus fuzis, gritaram o nome de Alah e de Maomé. Não se pode deixar de lado a tristeza da brutal tragédia. Toda a solidariedade do mundo às famílias das pessoas que foram assassinadas, mas o foco desse texto não é esse.

A notícia da chacina correu o mundo, sensibilizando quem tomava conhecimento do ocorrido. Porém, o que consegui notar, de um dia para o outro, foi o surgimento de um discurso defendendo o jornal e de seu direito de publicar o material pelo qual ficou conhecido. Na capa abaixo publicada no início do ano, o Charlie satiriza a discussão sobre o ensino de questões de gênero nas escolas, uma proposta que estava sendo discutida na Franca.

Capa do Charlie Hebdo de fevereiro de 2014

Capa do Charlie Hebdo de fevereiro de 2014

Eu não chamaria a imagem à esquerda de exercício da liberdade de expressão. Chamaria de discurso de ódio com teor cis-heteronormativo. Existe uma diferença entre se sensibilizar com as mortes da tragédia e entre, por causa dessas mortes, martirizar o dito jornal como exemplo de como a liberdade de expressão é “tolhida” quando o conteúdo de determinado veículo é justamente criticado, como era o caso do Charlie Hebdo.

É sobre essa questão de liberdade de expressão que quero tratar, e em especial, sobre as capas de dois dos três grandes jornais daqui de Pernambuco. Tanto o Jornal do Commercio quanto o Diario de Pernambuco publicaram na primeira página compreensíveis e adequadas mensagens de solidariedade às vítimas. Mas as imagens e os textos merecem ser analisados, especialmente quando vinda dessas duas empresas de comunicação.

Antes de mais nada, liberdade de expressão não é sinônimo de liberdade de imprensa. É, no mínimo, irônico que esses impressos venham defender a liberdade de expressão do jornal satírico francês quando em repetidas ocasiões, temas importantes foram escanteados nesses jornais e, em momentos críticos, era visível que seus jornalistas não  gozavam nem da liberdade de imprensa nem da liberdade de expressão – ocupação do Cais José Estelita é um entre tantos casos que poderiam ser citados. Apesar dos referidos jornais não terem a mesma vertente satírica do Charlie Hebdo, o discurso utilizado para santificar o jornal francês é o mesmo que aqui no Brasil, em especial em Pernambuco, perpetua uma mídia impressa que não serve à democracia da informação.

Charge na capa do JC 08/01/2015

Charge na capa do JC 08/01/2015

Imagem da capa do DP 08/01/2015

Imagem da capa do DP 08/01/2015

As imagens e frases sentimentais das capas defendem um jornalismo de viés liberal, em que jornalistas são pessoas heroicas que, supostamente, desafiariam interesses de grupos poderosos em nome da verdade. Nada pode ser mais engraçado do que o Jornal do Commercio e o Diario de Pernambuco estampando esse discurso nas suas capas. Ambos os jornais estão subordinados tanto ao poder executivo quanto às vontades políticas dos seus anunciantes. A censura interna nunca é comprovada, mas todas as pessoas envolvidas com a mídia sabem que ela existe, e que raramente é combatida.

Esses são os resultados de uma imprensa majoritariamente privada, onde as pessoas que estão inseridas nela, ou compactuam com suas omissões e meias verdades, ou ficam de mãos atadas porque afinal trabalham numa empresa privada que tem interesses que não podem ser contrariados. As falhas dentro da mídia comercial precisam ser combatidas, mas não podemos esquecer que mais importante que isso é exigir uma mídia pública que se concretize e mídias independentes que tenham espaço. Antes de querer asseptizar o mundo, os jornais pernambucanos precisam faxinar a própria casa.

*Victoria Ayres é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco e estagiária do Centro de Cultura Luiz Freire