Análises


Atos pelas “Diretas Já” ainda são minimizados pela imprensa pernambucana

por Daniele Alves* e Renato Feitosa**

No último domingo (11), cidadãs e cidadãos do Recife se reuniram em novo ato exigindo a saída de Michel Temer e eleições diretas para a presidência do Brasil. O evento contou com o expressivo protagonismo da classe artística na sua organização, uma tendência já apresentada em outras manifestações realizadas em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Olinda nas semanas anteriores. Longe de transformar protestos em festivais musicais, tal tendência expressa a ampliação dos setores que se engajam na mobilização popular pelas “Diretas Já”. Algo que, infelizmente, tem escapado à cobertura dos principais jornais pernambucanos: Jornal do Commercio (JC), Diario de Pernambuco (DP) e Folha de Pernambuco.

Nossa análise das matérias veiculadas, ou não, nas suas versões impressas das últimas semanas aponta que tais veículos da imprensa local, além de limitarem a visibilidade dos atos frente à sociedade, têm demonstrado preferência pela enfatização da característica “cultural” das apresentações artísticas do que a justa expressão das  pautas políticas quando os relatam. Como pode ser visto a seguir, parte-se da minimização da manifestação de Copacabana no final de maio, seguida de uma ligeira inflexão nas coberturas dos atos de 5 de junho e o retorno de uma abordagem “preguiçosa” a respeito do último domingo no Recife. Por outro lado, a firmeza da campanha pelas Diretas vem superando as barreiras que inicialmente enquadravam as manifestações somente na expressão do “Fora Temer”.

Rio de Janeiro

Em 28 de maio, as “Diretas Já” levaram mais de 100 mil pessoas à praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Na edição do dia seguinte, a Folha de Pernambuco utilizou um pequeno espaço em seu Caderno de Política para informar, basicamente, o número do público presente ao ato. Dado que escapou ao Diario de Pernambuco (DP) que se limitou a informar que a PMRJ não divulga dados oficiais a respeito de manifestações, sem que qualquer estimativa de público por parte da organização do ato fosse citada. Mesmo dedicando um espaço maior ao evento nas suas páginas, a abordagem do DP foi feita de maneira rasa, sem honrar a visibilidade alcançada por tamanho ato e o atrelando à imagem de um evento artístico e cultural muito mais do que político. A começar pelo título da nota: “Ato ‘Fora Temer’ reúne artistas no Rio”, que omite o principal teor do movimento: a exigência de eleições diretas. Além do título desvirtuador, a principal informação trazida pelo texto, e que tomava sua maior parte, foi uma extensa relação de artistas que se “apresentaram”. As demais pautas políticas, como o posicionamento dos manifestantes contrário às reformas da previdência e trabalhista, propostas pelo atual governo, foram somente citadas e já nas últimas linhas.

Por outro lado, na edição do dia 30, a Coluna “Em Foco”, assinada por Vandeck Santiago no DP, aborda o possível crescimento que o movimento “Diretas Já” poderia ter nas ruas nos dias posteriores. Tal abordagem poderia ser explicada pela liberdade gozada pelo jornalista em sua própria coluna, que não o vincula necessariamente à linha editorial adotada pelo jornal. Nela, podemos analisar as diferenças nas informações trazidas em relação à matéria que o DP veiculou no caderno de Política no dia anterior. Na coluna, Vandeck Santiago compara o movimento atual ao ocorrido em 1984 – quando o país acabava com a Ditadura Civil Militar e conquistava sua redemocratização. De acordo com o texto, alguns políticos duvidavam da força das manifestações de outrora nas ruas do país, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, onde políticos, militantes, artistas e intelectuais protagonizavam o movimento, como vem acontecendo atualmente desde o final de maio.

O Jornal do Commercio sequer cedeu um espaço, ainda que pequeno, para a manifestação.

Olinda e São Paulo

Na edição do dia 5 de junho do DP, a manifestação realizada em Olinda no dia anterior já conquista considerável destaque na capa do jornal com foto e a manchete “Protesto pelas Diretas Já”. A matéria também é destaque na seção de política, na terceira página da edição, repetindo no título a pauta das “Diretas Já” sustentada por manifestantes e não apenas a exigência pela saída de Temer da presidência, ainda que o sutiã – texto abaixo do título – resumisse o ato como “milhares de pessoas” gritando “Fora Temer” e um box enfatizasse a “saída do peemedebista”.

A abordagem da matéria (assinada) também fez mais justiça ao contexto político e às vozes do protesto. A delação de Joesley Batista é abordada, cita-se a fala de uma manifestante que denuncia o Golpe de Estado em 2016 e de um organizador do evento que informa a proposta de um formato diferente de protesto juntamente com a exposição da retirada do “direito máximo da população: o voto”. No mais, a matéria apresenta o trajeto que o bloco Eu Acho É Pouco realizou no dia do ato e a apresentação de artistas locais ao final da manifestação. No mesmo espaço, é apresentado o caráter independente de partidos políticos na manifestação ocorrida em São Paulo no mesmo dia, expondo a presença estimada de mais de 100 mil pessoas – algo omitido na nota sobre a manifestação carioca dias antes – e uma fala contundente de Mano Brown, que denúncia o tratamento classista da justiça brasileira.

Já o Jornal do Commercio trouxe em sua seção de política a discreta matéria entitulada “Carnaval e gritos por diretas”, sem qualquer destaque na capa. O título resume todo o tom que permeia o texto, enfatizando o caráter festivo dos atos em detrimento da sua politização. Após mencionar alguns dos artistas que participaram da manifestação em São Paulo – à qual a matéria é quase que exclusivamente dedicada – é citada fala do coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos. Em relação a Olinda, as informações foram resumidas a sete linhas e ao desfile do bloco Eu Acho É Pouco. O destaque fica para o último parágrafo da matéria, uma verdadeira “rajada” de informações equivocadas sobre o ato da semana que se seguiria no Recife, atribuindo sua realização à Frente Brasil Popular – quando tratou-se de uma iniciativa de artistas e diversas entidades da sociedade civil – e o Marco Zero como local – sendo o Cais Alfândega o correto.

A edição da Folha de Pernambuco indicou a realização dos atos em sua capa, mas de forma mais reservada, abordando em matéria de página inteira – cuja diagramação dedica a maior parte do espaço a fotos – as manifestações e seguindo o teor de eventos culturais, focando os blocos carnavalescos, apresentações e apoio de artistas nas duas cidades. Trata-se de uma matéria assinada – ou seja, sabemos quem escreveu – que deu voz aos organizadores do ato em Olinda, incluindo a manifestação da justificativa do Eu Acho É Pouco em aderir ao ato. Já as informações sobre a manifestação em São Paulo ficaram em segundo plano.

Recife

Uma semana depois, dois dos três principais jornais da capital pernambucana abordaram de maneiras parecidas (e sucintas) a manifestação ocorrida no Recife no dia 11 de junho. O DP optou por uma imagem do ato com o título “Diretas já!”, seguida de um minúsculo texto sobre a presença de “centenas de pessoas” exigindo eleições diretas e a saída de Michel Temer, além da participação de bandas e artistas no evento. No JC, a nota “’Diretas Já’ no Recife Antigo” mencionou os shows e citou uma única fala feita pelo presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Carlos Veras, sem dar a referência de que, na ocasião, o mesmo representava a Frente Brasil Popular, uma das diversas organizações sociais que tiveram espaço para discursar no trio elétrico que serviu como palco do evento.

Por outro lado, a abordagem da Folha PE dedicou maior espaço ao ato, trazendo, além das informações também encontradas no DP e no JC, uma contextualização política com referências aos acontecimentos mais recentes. Mas mesmo com tantas pessoas e entidades da sociedade civil envolvidas na organização do ato, a reportagem optou por citar uma avaliação da conjuntura feita pelo vereador do Recife Ivan Moraes (PSOL), que sequer estava implicado na realização do evento. Apesar de apontar que tal fala se deu “durante a manifestação”, o jornal não deixa explícito que a declaração foi feita em entrevista, favorecendo a interpretação de que a mesma teria sido feita no trio elétrico – o que contrariaria, inclusive, o princípio de não convidar figuras políticas para declarações no carro de som adotado pela organização do ato.

* estagiária do Programa de Direito à Comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire.
** coordenador do Programa de Direito à Comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire.