Análises


A economia da prevenção

Uma leitora do OmbudsPE nos manda uma provocação nesta terça-feira.  Uma nota na coluna Diario Econômico, publicada no Diario de Pernambuco e assinada pelo jornalista Aldo Paes Barreto chamou a atenção: “Vestindo a Camisa” trata principalmente dos números de preservativos que deverão ser distribuídos pela Prefeitura da Cidade do Recife durante o Carnaval 2014. Oitocentos mil masculinos, 25 mil femininos, gel lubrificante, e por aí vai. Nada diferente do que se espera de uma política preventiva de saúde.

Talvez por tratar-se de uma coluna de economia, o profissional fala do preço com dose de ironia: “Não vai sair barato”, e elenca os preços de mercado dos preservativos. Quem lê tem a impressão de que (1) os órgãos públicos pagam preço de mercado nas camisinhas e (2) o recurso sairá da PCR.  Ao dizer que a prevenção é cara, não leva em conta os possíveis retorno econômicos de um possível menor número de casos de doenças sexualmente transmissíveis no Sistema Único de Saúde ou partos (sem contar com os custos sociais de uma gravidez não desejada). Ao sugerir que o recurso sai apenas da prefeitura, esquece que muitas dessas políticas são federais e que muitos dos materiais são repassados pelo Ministério da Saúde.  Para se ter uma ideia, este ano Pernambuco receberá mais de 7 milhões de preservativos. Recife, mais de 900 mil. Os que sobram do carnaval são utilizados na rede pública de saúde.

A foto que ilustra a nota, pouco maior que o texto, não parece ter relação com a folia de Momo. Duas mulheres, paradas, à beira do mangue, mal identificadas. Uma fuma um cigarro, parecem esperar por algo. Querendo (forçando) encontrar alguma relação entre o escrito e o fotografado, alguém irá imaginar que tratam-se de profissionais do sexo. Se a relação desejada for essa mesma, vai contra todo o trabalho realizado por profissionais da saúde pública, que têm tentado romper o estigma relacionado à prevenção, desligando esta “tarefa” apenas de quem tem no sexo pago sua atividade profissional.

No Facebook, integrantes do grupo “Coletivo Marcha das Vadias” também comentaram a nota. “Só faltou ele dizer que a prevenção iria abrir um rombo nas contas públicas”, disse a jornalista Thais Queiroz. O educador Pedro Paz completa “No texto, a prática do sexo é tratada com ironia, quando o autor utiliza-se do qualificador “animadíssimo”, ao associá-lo ao carnaval. A união entre fotografia e texto sugere que o tema da nota é prostituição. Como se a prefeitura estivesse financiando a prostituição de mulheres. Não parece haver, por parte do colunista, preocupação com a saúde de quem se prostitui. O jornalista faz juízo de valor claramente e reprova a prostituição. Mas não seria mais irresponsável não disponibilizar os materiais?”

Abaixo, segue o print da nota. Qual é a sua análise?

aldopaesbarreto