A  influência da mídia hegemônica está sendo quase que desconsiderada nesta disputa eleitoral, visto que o seu valor de credibilidade diminuiu bastante após as chamadas “Pay Wall”, que é um sistema de assinatura usado por veículos de comunicação digitais e portais de notícia, que dá acesso a conteúdo exclusivo. Sem possuir a assinatura de certo portal, o acesso às informações é restrito.

Com isso, as pessoas deixaram de acessar portais de notícias para se informar mais facilmente, como no Facebook, Whatsapp e Blogs. Porém, o uso das redes sociais para propagar informações falsas, ou seja, “Fake News”,  cresceu drasticamente nos últimos dois anos, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O grande risco de usar estes locais como fontes de informações é comprovar a veracidade da notícia propagada.

No intuito de de garantir a confiabilidade do seu público, alguns portais de grande alcance deram início à um projeto de checagem do que está sendo compartilhado nas redes sociais. Os de maiores destaques são: Agência Lupa, da Revista Piauí; Verdade ou Mentira, da Gazeta do Povo; e Fato ou Fake, do Portal G1.

A Agência Lupa surgiu em novembro de 2015 e foi a primeira no Brasil a se especializar na técnica de fact-checking, ou seja, checagem de fatos. A Lupa faz parte da International Fact-Checking Network (IFCN), que é uma rede mundial de checadores de notícias que se concentra no Poynter Institute, localizado nos Estados Unidos. Nas eleições presidenciais deste ano, acompanha pronunciamentos, debates e entrevistas concedidas pelos presidenciáveis, checando se as afirmações são verdadeiras ou não. Além disso, a agência também checa postagens que estão repercutindo nas redes sociais.

A Verdade ou Mentira, da Gazeta do Povo, é uma sessão dentro do portal de notícias que recebe vídeos, imagens, áudios, etc. Dentro da página, você pode usar os filtros de “Verdadeiro”, “Falso”, “Impreciso” e “Impossível verificar”, que categorizam as postagens e facilita na busca de informações. O público pode contribuir mandando conteúdo para um número de Whatsapp disponibilizado pelo jornal, caso o desejo seja comprovar a veracidade do arquivo.

Já a “Fato ou Fake” é uma sessão dentro do Portal G1, criada no dia 30 de julho de 2018, mas que integra as equipes dos jornais O Globo, Extra, Época, Valor, CBN, Globo News e TV Globo. O objetivo é fazer um monitoramento diário para identificar mensagens suspeitas que são compartilhadas nas redes sociais e aplicativos.

A grande questão é: estes mecanismos realmente ajudam a diminuir a proliferação de fake news? A resposta é não. Justamente por conta da perda de credibilidade destes portais, como foi citado anteriormente, poucas pessoas acessam e levam a sério o que estas fontes dizem ser falso ou não. E o que mais choca, é que as fake news tem mais alcance nas redes sociais do que as notícias verdadeiras.

Um estudo feito pelo Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Sinal Aral, juntamente com seus colegas Soroush Vosuughi e Deb Roy, teve o objetivo de analisar o potencial da propagação de informações verdadeiras e falsas no Twitter, famosa rede social, desde sua criação em 2006 até 2017. Para dar início ao trabalho, várias centenas de notícias falsas e verdadeiras foram identificadas, usando informações de seis sites de verificação de fatos. Em seguida, usaram a plataforma de pesquisa (Twitter) para pesquisar as menções dessas notícias, seguindo a atividade de compartilhamento para os tweets de “origem”, ou seja, a primeira menção da notícia. Depois, os cientistas analisaram como eles se espalharam online.

Ao fim do estudo, foi descoberto que para todas as categorias de informação, as notícias falsas têm um alcance maior e se espalham mais facilmente do que as verdadeiras, mostrando que elas têm 70% de chance a mais de serem retwitadas. Além disso, informações políticas falsas se alastram mais rapidamente que qualquer outro tipo de notícia. E surpreendendo as expectativas, os usuários que espalham as fake news, tinham menos seguidores e seguidos e tinham menos contas verificadas, contra aqueles que espalharam notícias verdadeiras. Este comportamento na rede social é comum dos bots (robôs). Apesar disto, as notícias tomaram grandes proporções por conta do comportamento humano, não só pelos robôs.

Para os cientistas, a motivação para espalhar notícias falsas com mais intensidade do que as verdadeiras é o “fator novidade”. Na visão deles, o ineditismo atrai com facilidade a atenção humana, que encoraja o compartilhamento, conferindo status de “mais informado” entre o seu grupo.

As fake news ganharam peso nestas eleições, visto que este artifício está sendo usado para erguer campanhas, espalhando e promovendo inverdades. Mas, este fenômeno em campanhas presidenciais não é de hoje. Nas eleições norte-americanas de 2016, o embate entre Hillary Clinton e Donald Trump foi bastante influenciado por esta questão. Inclusive, foi o próprio candidato do Partido dos Republicanos que popularizou o uso deste termo.

No início deste ano, foi descoberto um grande escândalo de como a campanha do atual Presidente dos Estados Unidos foi construída a partir de um vazamento de dados de 50 milhões de usuários norte-americanos do Facebook, que foi usado pela consultoria Cambridge Analytica, com o objetivo de afinar com os perfis psicológicos as estratégias de atração de voto para Donald Trump, com propagandas políticas personalizadas e até notícias falsas.

Este escândalo foi revelado pelo ex-diretor de Tecnologia da empresa, Christopher Wylie. Ele declarou à imprensa que a companhia havia comprado estes dados vazados sem o consentimento dos usuários. Com isso, foi possível influenciar nas eleições norte-americanas e, também, por intermédio de empresas vinculadas, em outros processos eleitorais, como o referendo do Brexit.

A Cambridge Analytica foi fundada em 2013, nos Estados Unidos, por figuras relevantes que apoiaram Trump, como o bilionário Robert Mercer e Steve Bannon, que fez parte de sua campanha e hoje está como consultor político do candidato a presidência do Brasil Jair Bolsonaro (PSL).

Steve Bannon é conhecido por ser de ultra-direita e estar trabalhando em um movimento de disseminação dessa ideologia na Europa. Quando esteve à frente do BreitBait News, portal de notícias de extrema-direita, contratou a Cambridge Analytica para beneficiar Trump e outros projetos que tinha em mente.

Usando a campanha do Presidente Norte-Americano como inspiração, as fake news também estão dando base para a imagem de Bolsonaro. Na última quinta-feira, 18, foi descoberto um grande esquema de caixa dois onde empresários têm bancado a compra de distribuição de mensagens contra o Partido dos Trabalhadores e seu candidato à presidência, Fernando Haddad, em uma prática que se chama pacote de disparos em massa de mensagens no Whatsapp, e estariam preparando uma operação para a próxima semana, antes da votação do segundo turno. O esquema foi divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo.

Na visão de Bannon, e esta foi uma dica que ele repassou para a campanha de Bolsonaro, é que o Whatsapp é um aplicativo de mensagens direta entre usuários, por isso não pode ser monitorado externamente. Usando deste artifício, não tem como ter um controle sobre as fake news, além da facilidade de criar uma conta no Whatsapp. Este esquema, que conta com financiamento de empresários externos, se torna uma prática de caixa dois duplamente qualificado, a partir do momento em que conta com gastos a favor de sua candidatura vindo de fora do orçamento da campanha.

O que nos perguntamos agora é: a partir de todos estas notícias, o que pode ser feito para barrar o impacto das fake news no nosso cotidiano? Este combate deve ser realizado por todos nós: veículos de comunicação, redes sociais e órgãos públicos. Os grandes veículos, apesar de tentarem, devem arrumar uma outra forma de retomar a sua credibilidade para combater o compartilhamento de notícias falsas. As redes sociais, por sua vez, devem estancar a produção e proliferação de conteúdo desta natureza; já os órgãos públicos, devem fiscalizar e punir os responsáveis. Nós, como cidadãos, devemos ter senso crítico e não levar adiante notícias que não sejam verdadeiras.

Criar e disseminar conteúdos falsos podem provocar consequências inimagináveis. E o objetivo por trás, geralmente, são políticos, financeiros e de difamação. Enquanto não encararmos a questão das fake news como uma epidemia ou crise nacional (e internacional) que merece ser focada por todos nós, será bem difícil combatê-la.

Edição: Rosa Sampaio

REFERÊNCIAS:

Guru da ultra-direita mundial e ex-assessor de Trump atua na campanha das redes sociais de Bolsonaro

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

Caso revelado pela Folha é “caixa 2 duplamente qualificado”, diz advogado

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/19/internacional/1521500023_469300.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/26/internacional/1522058765_703094.html

https://www.megacurioso.com.br/estilo-de-vida/106637-como-as-noticias-falsas-fake-news-se-espalham-online.htm

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