Foto: Fernando Maia / Agência O Globo

Neste mês de outubro, a população brasileira enfrenta uma eleição para presidência atípica, polarizada e injusta. Desde a redemocratização do país, o medo de uma regressão no nosso sistema democrático não assolava parte da população de forma tão intensa. O resultado do primeiro turno materializou esse cenário e prosseguiu neste segundo turno com mais força. De um lado temos um candidato democrata, com discursos coerentes e propostas concretas. Do outro, temos o autoritarismo, discursos violentos e excludentes, e propostas pouco trabalhadas.

Desde as eleições diretas de 1989, sabemos que a mídia tradicional desempenha um papel decisivo para o resultado final e, consequentemente, atinge diretamente a democracia nacional. Em 1989, havia um grande desgaste político devido ao fim do regime militar, precedido pelo movimento Diretas Já. Collor pegou carona nesse momento, com a ajuda da mídia hegemônica, que teve seus interesses empresariais completamente assegurados pelo seu programa, e conquistou seu eleitorado. A Veja e a IstoÉ publicaram capas com a foto de Collor denominando-o “O Caçador de Marajás”. O Estado de S. Paulo diariamente divulgava matérias anti-PT, caracterizando-o como antidemocrático e atrasado. Já a Rede Globo distribuiu tempo desigual para os candidatos, mantendo Collor com 21,5% do tempo, segundo a Datafolha. Além disso, houve uma edição no debate entre Collor e Lula no 2º turno, de modo a deixar os melhores momentos de Collor e as piores respostas de Lula.

Em 1994, foi a eleição do Plano Real. A mídia atuou em todos os episódios políticos anteriores à data, destacando-se com uma participação ativa no impedimento de Collor. Quando surgiu a candidatura de Fernando Henrique Cardoso, os veículos a defenderam ferozmente referenciando-o como o “pai” do Plano Real; obtendo uma ajuda também de parlamentares progressistas que, em razão da preocupação deixada pelo jogo protagonizado pelo horário eleitoral de Collor em 1989, buscaram mudar a legislação eleitoral, resultando em uma série de limitações ao uso da mídia pelos partidos e candidatos. Quem sistematizou esse cenário foi Márcia Vidal Nunes no texto “O jornal Folha de São Paulo e a sucessão presidencial de 94”, no qual afirmou que essa situação acabou imprimindo à cobertura jornalística da mídia, que assumiu um caráter publicitário em defesa do candidato governista, um poder ainda maior.

Até 1998, houve uma ausência quase completa das campanhas políticas nos jornais. O silêncio garantia a equidade entre os candidatos e mantinha a mídia fora de grandes situações como em pleitos passados. Mas com a possível reeleição de FHC, os veículos, mais uma vez, se esforçaram em manter o seu compromisso com os setores dominantes. Mesmo em um cenário econômico de completo caos devido à crise do Plano Real, o então presidente candidato contou com a vantagem de poder se colocar muito mais vezes no espaço midiático do que os outros adversários, em razão das relações estreitas construídas desde 1994.

Nas eleições de 2002, a atuação midiática se intensificou desde os momentos que antecederam o processo eleitoral. Os candidatos receberam um tempo muito maior de exposição, com entrevistas longas e tempo rigorosamente cronometrado. Houve debates nas emissoras e pouca desigualdade entre o tratamento dos políticos e partidos. Entretanto, segundo Rubim Colling, “a superexposição não significou necessariamente transparência. A cobertura não contemplou nem uma pluralidade de interpretações da realidade, nem uma ausência de intervenção posicionada unilateralmente da mídia, que em lugar de uma manipulação ofensiva, como em 1989, realizou em 2002 um sutil controle das candidaturas, dos temas e, em especial, das interpretações que veicula sobre eles.”

A derrota da mídia

Já 2006, foi considerado o ano da derrota da mídia. Observou-se no impresso um desequilíbrio entre a cobertura dos principais candidatos a presidente da República e a do então presidente Lula, atribuindo-o mais matérias negativas. Essa cobertura desigual atingiu seu ápice às vésperas da realização do 1º turno, quando um delegado da Polícia Federal fez, de forma duvidosa, fotos do dinheiro apreendido com pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores para a compra de um suposto dossiê que incriminaria o PSDB na aquisição fraudulenta de ambulâncias na época em que José Serra era ministro da Saúde. O delegado convocou jornalistas da grande mídia para acertar clandestinamente a versão a ser dada para associar o caso ao Partidos dos Trabalhadores (PT). Foi se afirmando, nesse período, uma onda de antilulismo, reverberada por reportagens da mídia coorporativa. Segundo investigação da OBM/MWG-Brasil, Lula foi o candidato mais citado nas colunas dos principais jornais e também o que recebeu maior número de abordagens negativas desses colunistas. Vale salientar que foi nesta disputa que os sites e os blogs  aumentaram sua importância no debate eleitoral e a credibilidade da grande mídia foi colocada em questão.

Em 2010, estudos apontam que à medida em que a campanha ganhava intensidade, aumentava-se também a visibilidade dos principais candidatos ao cargo de Presidente da República, medida a partir da média das aparições do nome de um ou mais dos concorrentes. Comparado a 2006, os gráficos mostram um maior equilíbrio da cobertura realizada pelos três jornais. Contudo, os modelos estimados com os dados do Estudo Eleitoral Brasileiro mostraram que, em grande medida, elas foram mais favoráveis à Serra do que a Dilma.

Na eleição de quatro anos atrás, a mídia continuou sendo a oposição. Por iniciativa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, foi criado o manchetômetro, o qual concluiu que os dois principais candidatos a presidente foram objeto, nos veículos, de 275 reportagens de capa desde o início de 2014. Aécio Neves, de 38, com 19 favoráveis e 19 desfavoráveis. Tamanha neutralidade equidistante cessa com Dilma: ela foi tratada em 210 textos de capa. Do total, 15 são favoráveis e 195 desfavoráveis. Ou seja, 93% de abordagens negativas. Pouco depois da reeleição de Dilma, o cenário de impeachment foi ainda mais inflamado com a ajuda da cobertura jornalística. Reportagem rasas, pouca discussão sobre os reais motivos do pedido, provocação para a sociedade civil ir para às ruas, depoimentos conservadores, aliviamento para Eduardo Cunha…

Assim como na análise anterior sobre a atuação da mídia, podemos dizer que novamente ela atua com desserviço à população. Vezes equilibrada, vezes posicionada, mas nunca com o interesse público em primeiro lugar. Analisar como vem funcionando o jornalismo e exigir uma redemocratização e regulamentação da mídia é de extrema importância. Inclusive, isso deve começar na visualização e validação de propostas para a comunicação nos planos de governos dos candidatos a presidência do país.

Edição: Rosa Sampaio

 

Referências bibliográficas

BEZERRA, Heloísa Dias; MUNDIM, Pedro Santos. Qual foi o papel das variáveis midiáticas na eleição presidencial de 2010?. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762011000200007

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MACHADO, Mônica. A retórica da reeleição: mapeando os discursos dos Programas Eleitorais (HGPE) em 1998 e 2006. Disponível em: http://www.compolitica.org/home/wp-content/uploads/2011/01/gt_me-monica.pdf

MIGUEL, Luis Felipe. A campanha de 1998 na Rede Globo. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581999000200002

RUBIM, Antônio Albino Canelas; COLLING, Leando. Mídia , cultura e eleições presidenciais no Brasil contemporêneo. Disponível em: http://labcom-ifp.ubi.pt/files/agoranet/06/rubim_colling_midiaculturaeleicoes.pdf

RUBIM, Antônio Albino Canelas; AZEVEDO, Fernando Antônio; LEAL, Cláudio; ALCÂNTARA, Débora; MAGALHÃES, Lilia. Os estudos sobre mídia e eleição no Brasil. Disponível em: https://anpocs.com/index.php/papers-27-encontro-2/gt-24/gt09-14/4189-arubim-os-estudos/file

 

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