Durante as vésperas das eleições do segundo turno, o OmbudsPE realizou uma coleta dos principais veículos nacionais e locais para analisar, a atuação da mídia neste momento histórico que o país está enfrentando. Avaliar e reparar como o jornalismo brasileiro vem se colocando e informando o público, ante uma ameaça a democracia, é de extrema importância, visto que o nosso objetivo é exercer um monitoramento social do direito à comunicação.

Começando pelo impresso, no dia 18, logo após a nossa primeira análise, a Folha de São Paulo estampou no seu jornal uma denúncia a respeito do esquema de caixa 2, encampado na campanha de Jair Bolsonaro por dezenas de empresas, que estariam financiando ilegalmente o impulsionamento e divulgação de fake news contra Fernando Haddad e seu partido. Intitulada “Empresas bancam disparos de mensagens anti-PT nas redes”, a matéria identifica pelo menos três crimes: caixa 2, abuso de poder econômico e financiamento empresarial – o que fere a lei eleitoral.

No dia 19, a IstoÉ trouxe na sua capa uma montagem na qual Fernando Haddad está personificado na figura de um cavalo e dentro estão as imagens de Lula, Dilma Rousseff, José Dirceu, Lindbergh Farias, Gleisi Hoffmann e Fernando Pimentel. Com o título “O cavalo de troia mais óbvio da história”, a chamada dizia “Nesta reta final da eleição, Fernando Haddad posa de democrata para trazer de volta ao poder a camarilha de malfeitores petistas que, comandado pelo prisioneiro Lula, assaltaram o país.” Em seguida, no dia 26, a revista volta a se posicionar e publica em sua capa “E o PT criou o Bolsonaro”, com uma montagem da pintura “A Criação de Adão”, de Afresco de Michelangelo, trazendo Bolsonaro como Adão e Lula como Deus. Na chamada, o veículo diz: “Após 13 anos de malfeitos ao Brasil, o Partido dos Trabalhadores colhe os resultados de tanta corrupção, compadrio político e incompetência na economia, gerando seu próprio antagonista.”

 

Capa da edição nº 2548 – 19/10/2018

Capa da edição nº 2549 – 26/10/2018

O Estadão, na semana pré segundo turno, dedicou a maioria de suas manchetes ao candidato do PSL, falando sobre suas intenções para ministros, sua posição quanto a Reforma da Previdência e a situação das pesquisas eleitorais. Enquanto isso, a Veja publicou no dia 24, uma capa com “Os generais de Bolsonaro”, com o objetivo de dizer quem são e o que pensam os militares que cercam o presidenciável Jair Bolsonaro e estão cotados para assumir altos postos em seu eventual governo. Na edição da semana do dia 31, a capa traz uma ilustração da Constituição dentro de um vidro com os dizeres “Em caso de emergência, quebre o vidro” e o título “Urros e democracia. Com a provável eleição de Bolsonaro, as instituições — que resistiram às tentações autoritárias da esquerda petista — terão agora de vencer as tentações autoritárias da direita radical.”

Capa da edição nº 2605 – 24/10/2018

Capa da edição nº 2606 – 31/10/2018

Na televisão, o Jornal Nacional sai do equilíbrio e cumpre com seu papel antidemocrático. No dia da divulgação do esquema de caixa 2, o telejornal se limitou na edição e o apresentador William Bonner expôs de forma superficial o conteúdo da denúncia, apenas porque a legislação o obriga a cobrir a agenda dos candidatos e Haddad falou sobre o assunto ao longo de todo o dia. Por outro lado, a edição veiculou uma entrevista exclusiva com Bolsonaro em que o candidato falou sobre suas propostas e sequer tocou no assunto da denúncia. Enquanto isso, a Rede Record já aderiu a sua campanha pró-Bolsonaro desde o começo da disputa eleitoral. Esta, talvez, valha uma análise exclusiva após o segundo turno.

No rádio, o jornalista Juremir Machado da Silva, um dos mais respeitados jornalistas gaúchos, pediu demissão ao vivo da Rádio Guaíba, no dia 23. Ele foi proibido de entrevistar Jair Bolsonaro pela direção da rádio, que negociou que apenas o apresentador do programa, que é simpático ao candidato do PSL, fizesse perguntas ao presidenciável. Os outros jornalistas presentes assistiram a entrevista calados. Ao final, Juremir pediu demissão e foi embora.

Na mídia local, ouvintes relataram que os jornalista Aldo Vilela e Inaldo Sampaio ridicularizaram quem se declara vítima de tortura na época da ditadura militar. Segundo os depoimentos, “entre risadas, um dizia que ‘virou moda dizer que foi torturado’, enquanto o outro respondia ‘levou uns petelecos ou um empurrão, já diz que foi torturado.’’

No Diário de Pernambuco, as capas da semana passada trouxeram as ameaças de Eduardo Bolsonaro ao STF, as intenções do candidato do PSL de manter a equipe econômica de Temer e as pesquisas eleitorais divulgadas. Enquanto isso, o Jornal do Comércio chamou a atenção da nossa análise, na cobertura feita sobre os dois atos que aconteceram no dia 21; um pró Bolsonaro, em Boa Viagem, e outro pró Haddad, em Olinda. No caderno de política, o jornal dedicou uma página inteira sobre a manifestação que ocorreu em Boa Viagem e diversas fotos e depoimentos ao longo da matéria. Em contraponto, a respeito do ato pró Haddad, o veículo escreveu apenas meia página e publicou uma foto. É visível, pela diagramação, uma discrepância de cobertura.

Caderno de Política do Jornal do Comércio – 22/10/2018

 

Edição: Rosa Sampaio

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