Em sua primeira semana como presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro mostrou que seu discurso de imprensa livre, propagado por sua campanha e eleitores, vai de encontro com a prática. Na sua primeira coletiva de imprensa, jornais impressos de circulação nacional, como Estadão, Folha de S. Paulo, O Globo e as agências internacionais, foram barrados na porta do local e não puderam participar. Desde o processo de redemocratização, nenhum presidente eleito tomou tal atitude.

Durante sua campanha eleitoral, Bolsonaro entrou em atrito frequentemente com a imprensa, atribuindo todas as notícias negativas ao seu respeito como “fake news”, ou seja, notícias falsas. Vale salientar que este é um modelo também usado pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O que também chama a atenção é como a postura de ambos perante a imprensa é igual.

Bolsonaro e Trump compartilham uma lógica: anunciam algo para a imprensa; tem uma péssima repercussão; vão para suas redes sociais e desmentem a notícia, como se fosse fake news. Este ciclo é frequente e faz com que os jornais e portais de notícias percam sua credibilidade na sociedade, esse é o objetivo desses governos de extrema direita e que propagam discurso de ódio contra as minorias. E nestas eleições as redes sociais tiveram um papel importante, não só pela propagação tremenda de fake news, mas por ter se tornado o principal local de pronunciamento do candidato, modelo de campanha que também foi inspirado na campanha do então candidato americano Donald Trump, conhecido por ameaçar países e insultar pessoas contrárias a ele.

Um outro episódio de tentativa de censura à imprensa brasileira aconteceu recentemente nesta última terça-feira (06), onde seria a volta de Bolsonaro à Brasília após ter sido eleito. Sua equipe de segurança tentou barrar profissionais de imprensa para fazer cobertura da solenidade em comemoração aos 30 anos da Constituição Federal. Apesar da tentativa, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, contrariou o pedido e liberou as laterais do plenário do Congresso para a imprensa.

De acordo com levantamento da Folha de S. Paulo, os ataques de Bolsonaro à imprensa chegaram a 129, do início do ano até agora. Deste número, 45 aconteceram só no mês de outubro, sendo dez por semana no fim da campanha presidencial.

Na Constituição Federal de 1988, existem vários artigos que exigem a imprensa livre e sem censura, já que é uma forma de informar a sociedade civil sobre o que está acontecendo no país. Bolsonaro, em suas últimas entrevistas, disse que será “escravo da constituição” (sic). O presidente eleito demonstra com suas atitudes que não irá tolerar uma imprensa crítica a sua gestão.

O que podemos notar é que no governo que está por vir, a luta pela liberdade de expressão e de imprensa será fundamental para o país, pois mesmo sendo fortemente atacada e tendo a credibilidade questionada, os veículos de comunicação são importante para a efetivação da democracia e do Estado democrático de direito, assim como garante a Constituição Federal de 1988, celebrada esta semana –  inclusive pelo próprio Jair Bolsonaro, pelos 30 anos da sua promulgação.

Edição: Rosa Sampaio

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