Nesta eleição de 2018, a mídia tradicional perdeu sua força definitivamente e ganhou corpo nas redes sociais, mais especificamente no WhatsApp. Porém, vale pontuar a atuação de quem sempre foi o carro chefe nessa disseminação de conteúdo e formação de opinião até a publicação desta análise.

A Rede Record, do pastor Edir Macedo, não esconde seu posicionamento nem faz questão de tal. No último debate, na véspera da votação do 1º turno, a emissora entrevistou o candidato Jair Bolsonaro e dedicou longos minutos para ele, no mesmo horário em que estava acontecendo o debate na sua maior concorrente, a Rede Globo. No seu portal de notícias, o Portal R7, a emissora não exita em publicar exclusivamente notícias positivas sobre o candidato do PSL e outras mornas sobre o restante das candidaturas. Relatos de jornalistas da redação da emissora alegaram que estão havendo encomendas, para comprometer a imagem de candidatos derrotados no primeiro turno, que apoiem Fernando Haddad. As matérias positivas sobre o petista não são chamadas no site e nem nas redes sociais.

O Estadão, na briga pelo poder, já escolheu o seu lado também. Às vésperas das eleições do 2º turno, o jornal publicou uma matéria em que a manchete diz “Gestão Haddad pagou R$245 milhões em contratos sob suspeita”. Entretanto, no desenrolar da notícia, não existe nenhuma informação nova ou relevante. Pagou-se a dívida da cidade, feita por um prefeito anterior (obrigação de Haddad enquanto prefeito em vigência, inclusive) e quando possível, os contratos foram suspensos por decisão administrativa, no segundo mês do mandato do petista.

Segundo outros depoimentos de jornalistas, a rede Bandeirantes também está obrigando seus redatores a publicarem apenas notícias positivas sobre Bolsonaro e negativas sobre Haddad. A IstoÉ pouco antes do 1º turno, publicou uma capa com a foto do candidato do PT, de forma obscura, com o título “Haddad: o candidato com 32 processos”. Em contraponto, a revista também publicou uma capa dedicada ao candidato do PSL, porém, um mês antes, sobre as suas fake news. Além disso, a última publicação da revista, no dia 11, trouxe mais uma vez o rosto de Bolsonaro estampado na capa questionando “De onde vem essa onde conservadora?”.

Enquanto isso, a Veja dedica sua atenção a Bolsonaro, mas de uma forma negativa. Neste mês de outubro, duas das três capas publicadas falavam exclusivamente sobre o presidenciável do PSL. Uma é o processo que sua ex esposa o acusou de furtar um cofre de banco, ocultar patrimônio, receber pagamentos não declarados e agir com “desmedida agressividade”; a outra saiu ontem (17), após a pesquisa do Ibope, no qual Jair Bolsonaro aparece com 59% dos votos válidos. A revista colocou uma foto do político com uma faixa presidencial, uma boina do exército, as mãos fazendo o sinal de arma e o título “Será isso mesmo?”. A outra capa deste mês foi intitulada “Duelo da Insensatez”, referindo-se a ambos candidatos como “retrocessos para o país”.

Exclusividade

No rádio, a Jovem Pan concedeu 26 minutos de entrevista ao Bolsonaro, beneficiando-o exclusivamente na corrida presidencial. No canal por assinatura GloboNews, a cobertura ganha um tendência mais neutra, com comentários feitos no programa dedicado ao cenário intitulado “Central das Eleições”. Na emissora mais influente do nosso país, a Rede Globo, mais uma vez, depois dos episódios do impeachment da ex-presidente Dilma e a grande onda de críticas que vem recebendo desde então, a cobertura jornalística sobre esta eleição está mais equilibrada. A emissora provavelmente entendeu a delicadeza da situação. Entretanto, seu antipetismo fica visível quando na sabatina do Fernando Haddad antes do 1º turno, o candidato quase não conseguiu falar sobre suas propostas e foi interrompido várias vezes.

Contudo, a influência da mídia hegemônica, assim como em 2010, está sendo quase que desconsiderada nesta disputa eleitoral. O que chega nos smartphones do brasileiro está determinando fortemente os resultados das eleições de 2018. Se aprofundarmos nas razões que contribuíram, e ainda contribuem, com este fenômeno de crescimento e força de uma “nova mídia” e uma nova plataforma para disseminar informações, como o WhatsApp, visualizamos como o jornalismo caminhou para este cenário. Destrinchar esse capítulo da história do jornalismo merece atenção na nossa próxima análise.

Mas, dessa forma, podemos dizer que novamente a mídia atua com desserviço à população. Vezes equilibrada, vezes posicionada, mas nunca com o interesse público em primeiro lugar. Analisar como vem funcionando o jornalismo e exigir uma redemocratização e regulamentação da mídia é de extrema importância. Inclusive, isso deve começar na visualização e validação de propostas para a comunicação nos planos de governos dos candidatos a presidência do país.

Edição: Rosa Sampaio

Referências bibliográficas

COIMBRA, Marcos. As eleições e a mídia. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/revista/813/as-eleicoes-e-a-midia-1696.html

DEMORI, Leandro. Os bastidores do apoio do Portal R7 a Bolsonaro. Disponível em: https://theintercept.com/2018/10/13/bastidores-universal-edir-macedo-apoio-portal-r7-bolsonaro/?comments=1#comments

LIMA, Venício A. de; O papel da mídia na campanha presidencial. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/o-papel-da-midia-na-campanha-presidencial/

Edições Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/edicoes-veja

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