Areia, cimento, galões de tinta, marceneiros, pedreiros e muito trabalho voluntário da comunidade garantiram a reforma da rádio comunitária Alternativa FM, que funciona no bairro de Engenho Maranguape, município de Paulista, há seis anos. E para comemorar a volta da 98,1, depois da paralização para a reforma, comunidade e equipe da rádio promovem neste domingo, 25 julho, festa de reinauguração com programação de debates, começando a partir das 9h, voltada para educação, comunicação, direitos humanos, direitos constitucionais e o desenvolvimento social da cidade, além de atrações culturais no horário da tarde. Entre os convidados estão professores das escolas públicas locais, radialistas, comunicadores da Alternativa FM, advogados, jornalistas, entre eles os integrantes do Centro de Cultura Luiz Freire  Ivan Moraes Filho e Cátia Oliveira,  e o prefeito da cidade, Yves Ribeiro.

De acordo com o diretor de programação da rádio, o comunicador David Moreno, esta é a terceira reforma do veículo de comunicação comunitário, possível graças a colaboração dos moradores do bairro. A Alternativa FM, há seis anos no ar, além de veicular serviços de utilidade pública como campanhas de saúde, informes sobre vagas de emprego, documentos achados e perdidos, promove formação para jovens do bairro criarem seus programas e manifestarem suas idéias, debates com a comunidade, além de programas esportivos que trazem os campeonatos e os times locais, hoje um total de 30 equipes, que agregam também os bairros vizinhos, cobertos pela rádio que conta com alcance de 4 Km ( via aérea).

Microfone aberto

Toda quarta-feira, das 18h às 20h, no Conversa de Rua, o microfone é aberto aos movimentos sociais e autoridades locais,  que discutem no programa, questões de gênero, saúde pública, discriminação, educação, entre outras  com participação da comunidade por meio de perguntas ou de novas sugestões de temas.

“Eu só ligo pra rádio para quatro coisas: cobrar, pedir, perguntar e exigir mesmo”, diz o biólogo Manoel Toscano de Brito Badu, o Madu. “Gosto de participar dos programas sobre meio ambiente e gosto quando tem polemica”, revela. Madu conta que aproveita a participação dos secretários ou prefeito ao microfone, para cobrar as benfeitorias anunciadas nos folderes e panfletos que recebe na prefeitura, quando vai ao centro de Paulista. “Tinha em um folder que a prefeitura iria construir três restaurantes populares, em Conceição, em Paratibe e outro aqui no Engenho Maranguape. Até agora não vimos nada. Quando o secretário esteve na rádio perguntei sobre as obras e ele falou que estavam sendo providenciadas. Vamos aguardar até a próxima vinda, pra vê no que é que dá”

“É através da rádio que a gente consegue as coisas. Quando faltava fardamento na escola, a gente avisava a secretaria de educação e quando nada era resolvido, ligávamos pra rádio. O prefeito tem um radinho”, diz a aposentada Maria do Socorro. Dona Maria garante que, se a rádio estivesse funcionando ( está paralisada devido a reforma), já teriam  ligado para reclamar da rua repleta de lixo e a prefeitura já teria vindo limpar.

Para Davi Moreno, técnico em eletrônica e um dos fundadores da Alternativa FM – juntamente com associação de moradores do bairro, a rádio é uma ferramenta de luta e conscientização “ O importante é ter um povo consciente.  Aqui procuramos estimular a participação e o telefone é aberto, o limite é respeitar a integridade da pessoa”,diz o comunicador.

Jovens

“Criamos através da rádio o I Torneio Infanto-juvenil Só Ação, que pretendemos realizar todos os anos com o apoio das escolas”. Diz a esportista e auxiliar de cartório Maria de Lourdes Andrade, também secretária da Organização não-governamental Só Ação. Lourdes, como é conhecida, fala da importância de investir nos  jovens , principalmente num lugar com altos índices de violência. A  ex-jogadora de handebol,  ainda manifesta o interesse em montar um programa para discutir questões de gênero. “Acho importante também termos um programa que englobe tudo referente a mulher, religião, opção sexual, saúde da mulher negra, da mulher lésbica, com informações que abram janelas para mudanças e precisamos estar  juntos com as escolas.”

O estudante  Darlan Simplício comanda, das 14  às 16h , o programa Conexão, que além de tocar músicas de gêneros variados,  traz todo dia um tema debatido pelos jovens da comunidade e de bairros vizinhos como Maranguape I, Janga, Pau Amarelo,Conceição e comunidade do Tururu. “ Cada dia um grupo de jovens traz um assunto diferente pra informar no programa. Já trouxeram pesquisas importantes sobre hanseníase, a água e o lixo. A gente sabe que importante pra educar o povo”, afirma. Segundo Darlan, no bairro  há muita criança que toma banho em canal, famílias que criam animais – que invadem  quintais como porcos, galinhas – e precárias condições de higiene.

“O que acontece nas escolinhas de futebol de Paulista ligam pra gente, para divulgarmos” diz o locutor do Conexão Esportiva Marcone Resenha. “Aqui acontece o  campeonato com times do Engenho ( Maraguape) e  de outros bairros que cobrimos no programa,” explica o locutor, informando que das várias equipes do lugar, saem  jogadores que hoje atuam tanto em campeonatos nacionais quanto fora do país.

De acordo com Marconi, com a divulgação dos jogos, o programa visa incentivar o futebol de várzea e os jovens a praticar o esporte e a ficar longe do crime e da drogas. O programa vai ao ar todas as segundas e quintas-feiras, das 18h às 20h e recebe, segundo Marcone, uma média 25 ligações por noite.

A rádio parece mesmo está em alta no bairro.  Basta um passeio pela comunidade  e a breve pergunta “qual a rádio que você mais ouve ”, para constatar que a resposta é o nome da rádio comunitária . “Fizeram uma pesquisa do Ibope das rádios aqui no bairro, pra saberem qual era a mais ouvida  e  só deu a Alternativa FM”, afirma Davi Moreno. Segundo o comunicador, foi realizada a festa nos bairros, promovida por uma conhecida FM de Recife. E, quando o apresentador do evento perguntou qual a rádio mais ouvida no lugar, todos gritaram que era a Alternativa FM, o que deixou a equipe da rádio comercial intrigada, de acordo com Davi.

Anatel

Um semana depois do evento, ocorrido em 2006, Davi conta que a rádio recebeu a visita de três técnicos da Agencia Nacional de Telecomunicações ( Anatel) , o órgão responsável pela fiscalização das licenças de rádios comunitárias entre outras atribuições.  Os agentes conferiram os documentos do veículo e sua homologação junto ao Ministério das Comunicações. Entretanto, como não tinham a tão esperada  autorga – lincença para funcionar, emitida pelo executivo, em Brasília – receberam notificação para fecharem as portas.

De posse de todos os documentos, incluindo a notificação da Anatel, Davi procurou a justiça. Com centenas de assinaturas da comunidade e muitas audiências, conseguiram parecer favorável da justiça, para funcionamento da rádio por meio de uma liminar.

Desde 2004, data de sua criação,a Alternativa FM mostra-se como mais um importante instrumento de participação social. Com forte atuação popular e apoio cultural para seu funcionamento, o veículo demonstra fôlego e dá um exemplo de efetivação de um  direito legítimo : o direito á comunicação. No domingo, os microfones, mais uma vez, estarão abertos à esta discussão, entre tantas outras que permeiam a comunidade, que preparou várias atrações culturais entre coral e apresentações musicais diversas para comemorar.

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

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