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Esta semana, o jornalismo brasileiro se despediu de um dos grandes nomes da comunicação no país. Alberto Dines, o observador da imprensa e ativista da comunicação, morreu aos 86 anos, na última terça-feira (22). Conhecido, principalmente, por ser o fundador do primeiro observatório crítico da mídia brasileira, Dines possuía grande maestria ao provocar reflexões sobre os veículos de comunicação em vigor no país.

Desde 1960, Alberto se propôs a estudar como se dava o fazer jornalismo fora da Academia e a importância dessa discussão. O projeto de criação do Observatório da Imprensa foi sendo construído durante a sua trajetória como jornalista nos principais veículos brasileiros. Ele iniciou sua carreira em 1952, na extinta revista A Cena Muda, como crítico de cinema, em seguida, passou pela revista Visão, cobrindo teatro e cinema. Pouco depois, atuou como repórter de política na revista Manchete, lugar no qual teve início sua trajetória de textos longos e autorais. A convite de Samuel Wainer, seguiu em 1959 para Última Hora, como editor do caderno de cultura.

Abraçando novas propostas e indo para cobertura policial, Dines trabalhou no Diário da Noite. Passou ainda pela Tribuna da Imprensa, antes de fazer sua grande atuação no Jornal do Brasil, como editor-chefe em 1962. No JB, Dines permaneceu durante 12 anos e foi o lugar no qual se destacou pelo incrível talento de driblar a censura imposta no país durante a ditadura militar. Uma delas, lembrada até hoje como uma edição histórica, foi na primeira página do JB, no qual ele usou a previsão do tempo para enganar o censor da redação na edição da promulgação do AI-5: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…”

O papel desenvolvido por ele enquanto editor do Jornal do Brasil tornou o veículo uma referência no país e, principalmente, para estudantes de jornalismo. Dines realizava cursos de jornalismo para estudantes de comunicação, participantes dos testes de seleção.

 Na mesma época, enquanto professor de jornalismo da PUC-Rio, foi convidado para ser paraninfo de uma turma logo após a edição do AI-5. Na ocasião, ele discursou criticando a censura, o que resultou na sua prisão e o noticiamento deste episódio ficou por conta do New York Times, que dedicou editorial, enquanto a mídia brasileira ignorou o fato.

Em 1974 foi para os Estados Unidos, onde foi professor-visitante na Universidade de Colúmbia. Voltou ao Brasil, em 1975, convidado por Cláudio Abramo para ser diretor da sucursal da Folha de S.Paulo no Rio de Janeiro. Em 1980, passou a colaborar com O Pasquim. Viveu em Lisboa entre 1988 e 1995, foi secretário-editorial do Grupo Abril e um dos fundadores da revista Exame.

Toda a sua trajetória e vivência contribuiu para a fundação do Observatório da Imprensa e para o desenvolvimento do seu olhar crítico quanto a comunicação feita no país. Dines foi um grande ativista da comunicação e defensor da regulação da mídia brasileira, o que o tornou referência no debate sobre o tema.

Em tempos de golpe, o bom e verdadeiro jornalismo de Dines é uma prova de resistência contra governos e mídias golpistas. A sua atuação profissional mostrou a ética e rebeldia de um jornalista, somadas ao comprometimento com a informação, em uma sociedade democrática, defendendo a resistência do profissional de comunicação frente ao poderio político-econômico. Um exemplo de jornalista comprometido e inovador, Dines debatia muito sobre apuração e checagem da informação, o que fez uma das suas frases se tornar bastante conhecida: “Se nossos jornalistas e opinionistas (sic) tivessem competência e discernimento para utilizar ferramentas de busca da internet nosso jornalismo talvez fosse menos precário e mais denso.”

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