Hoje, 10 de maio, pela manhã, na câmara municipal do Recife, a frente parlamentar pela cidadania LGBT, discutiu em audiência pública, o projeto de lei que torna crime a discriminação por cor, raça, identidade de gênero e orientação sexual, o PL 122/2006 que tramita no Senado. A capa do Diário de Pernambuco de hoje, trouxe, estampada, a manchete “Religiosos temem lei em defesa dos gays”. Ao abrir o jornal, vemos no caderno Vida Urbana, em destaque, a matéria, em página inteira: Cruzada contra projeto de lei. Curiosamente, o leitor tem acesso a uma série de opiniões de religiosos contra o projeto, exceto à informações do projeto de lei ou dos grupos sociais que participam da discussão do PL.

Thiago Rocha, coordenador de projetos de Diversidade Sexual do Instituto Papai e integrante do Fórum LGBT de Pernambuco, diz que seria importante que a matéria tivesse o cuidado de procurar ouvir o outro lado para garantir um debate democrático. “Em momento algum a matéria explicou o projeto de lei, não procurou falar com a gente e estamos trabalhando na reformulação da lei anti-discriminação”, expõe.

Silêncio

O texto tenta desqualificar a discussão em torno do PL, que não é explicado, e busca impingir ao projeto caráter discriminatório às avessas, como se o público LGBT e o PL fossem heterofóbicos. Vemos três depoimentos utilizados para reiterar a posição da matéria: bispo Dom Robison Cavalcanti, da Diocese Anglicana do Recife, pastor Ney Ladeia da igreja Batista da Capunga, vigário geral da Arquidiocese de Olinda e Recife, padre Lino, e nenhum depoimento LGBT. Nenhuma referência a qualquer parcela da sociedade que possa defender a lei.

A manchete de capa não abre margem para a percepção de que existem algumas denominações religiosas que não estão organizadas contra o projeto de lei. A matéria vinculada, de apenas três parágrafos (diagramados no rodapé direito da página inteira que foi dedicada à matéria) apenas indica uma denominação evangélica pró-LGBT e dá informações sobre quais são os parlamentares que formam a frente. Não existe qualquer argumento em defesa da lei. Nenhum depoimento.

Duas fotos ilustram a página. Uma, aberta, de uma celebração religiosa, com uma bíblica em primeiro plano, tem o objetivo principal de colocar em xeque a lei que poderia “proibir” (sic) a leitura de alguns versículos. A outra, de um religioso que faz um depoimento muito próximo de uma defesa  ao  “direto à homofobia”.

Quando o jornal silencia vozes em defesa dos direitos do público LGBT, inclusive de suas entidades representativas, assim como as de demais grupos socialmente estimatizados, exerce uma forma de censura privada que não reproduz os ideais de liberdade de expressão defendidos amplamente nos discursos da empresas jornalísticas.

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