Henrique Viana¹

Em uma matéria do Correio Brasiliense do dia 12 de outubro de 2019, em especial de dia das crianças, estampou-se 17 crianças, todas com menos de 5 anos de idade, apontadas pelo periódico como o futuro do Brasil. Entretanto, a falta de diversidade dos modelos foi alvo de crítica. Onde estão as crianças negras, indígenas e orientais? A quem pertence o futuro do Brasil?

 No dia 15, o jornal reconheceu o erro em um artigo de opinião. “Leitores protestaram contra a hegemonia branca. Com razão. Foi um erro gravíssimo! O Brasil é um país miscigenado em que convivem pessoas de diferentes origens, diferentes credos, diferentes tendências políticas. O tabuleiro de raças, cores e culturas é que faz o Brasil Brasil”, descreve o texto. 

Apesar do pedido de desculpa, a reflexão surge, quase que sem querer. Se o racismo estrutural apareceu de forma tão óbvia e o jornal não teve a sensibilidade de perceber, quantas matérias cheias de racismo velado não existem?  Durante muitos anos o Brasil torturou, escravizou e matou a população negra. Com a abolição, os escravos obtiveram alforria, mas não tiveram nenhuma assistência social para proporcionar uma inclusão social, sem contar o racismo fortíssimo e estruturado. Com o passar dos anos, lentamente, os negros vêm buscando a inclusão social, mas o racismo ainda é estrutural. 

A maioria dos pobres são negros, a maioria dos reclusos são negros, a maioria dos moradores de comunidade são negros, a maioria dos estudantes das escolas públicas, sabotadas e sucateadas em pró daqueles que elitizam a informação, são negros. Enquanto isso, os brancos (desde a chegada dos Portugueses ao “Novo Mundo”) são os detentores dos meios de produção, incluindo a imprensa. Capas como as do Correio Brasiliense evidenciam cada vez mais que o Brasil não superou as sequelas da escravidão, e ainda têm muito a fazer para incluir a juventude negra e igualar as oportunidades com os brancos. O Presidente Jair Bolsonaro já se declarou contra cotas raciais e se mostra indiferente em relação à programas de assistência social.

 Nessa perspectiva, a quem pertencerá o futuro do Brasil? Até quando o racismo estruturado sabotará, aprisionará e assassinará a juventude negra brasileira? “Existe um processo de tornar a morte dos jovens negros invisível. Entendendo o processo histórico, é possível perceber que persiste a ideia de que a morte de um jovem negro parece ser menos importante. Nenhum jovem deveria morrer. “Todos e todas deveriam aproveitar ao máximo o seu potencial, inclusive as juventudes negras”, disse a oficial de programa para gênero e raça do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Raquel Quintiliano. É tempo de reflexão para todos os jornalistas e grupos de comunicação.

¹ Henrique Viana é estudante de jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco

 

 

O OmbudsPE é um projeto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota seja incluída.

Realização:

Apoio:

Busca