Ana Roberta Amorim¹

No ar pela TV Globo, a novela A Dona do Pedaço, que traz a história de uma mulher que depois de muito esforço e dificuldade conseguiu construir sua riqueza a partir de uma rede de lojas de bolos, que também conta com uma fábrica. Em meio à trama, há duas personagens que me chamaram bastante a atenção. As irmãs Sílvia (Lucy Ramos) e Gilda (Heloísa Jorge), sendo esta esposa de Amadeu (Marcos Palmeira), antigo amor de Maria da Paz (Juliana Paes), protagonista da novela. As duas são mulheres negras que começaram a novela de maneira independente, e, mesmo estando com seus parceiros (homens brancos), tinham protagonismo sobre suas próprias vidas.

No entanto, as coisas começaram a mudar pouco tempo depois da estreia da novela, que aconteceu no fim de maio. A primeira irmã, Sílvia, namorava o contador da fábrica de bolos da protagonista, Márcio (Anderson Di Rizzi), e mantinha uma relação estável com ele, até que Kim (Mônica Iozzi), uma mulher branca e rica, surge entre os dois e abala profundamente o namoro deles. Márcio é a todo momento seduzido por Kim e permite que isso aconteça, não se importando que sua namorada está em casa esperando notícias dele. Quando ela fica sabendo da traição, é pressionada para que perdoe, além de ser colocada como uma mulher que não entende que está atrapalhando o romance do novo casal e que não consegue se livrar de uma paixão que não é correspondida.

Já a sua irmã, Gilda, passa por uma situação ainda mais delicada e surreal. Ela foi diagnosticada com câncer de mama, precisou retirar um dos seios, mas se recuperou rapidamente. No entanto, numa tentativa desesperada de manter o marido ao seu lado, temendo que ele retorne com a antiga namorada, também rica, inventa que ainda sofre com os sintomas da doença. 

Claro, por ser uma novela, é esperado que personagens se unam e se separem a todo o momento até que tenham o seu final feliz. O conflito faz parte, ajuda o público a criar vínculo com os personagens e a torcer para que terminem juntos. 

No entanto, a forma como o romance dessas duas mulheres negras acontece na novela denuncia não somente a falta de sensibilidade do autor como a normalização de uma situação que não apenas existe como é recorrente: a solidão da mulher negra. Depois da chegada das mulheres brancas na relação delas com seus companheiros, nenhuma das duas personagens, as únicas negras em toda a novela até agora, têm de fato uma história independente dos homens a quem elas se uniram no início da trama. Nenhuma delas têm realmente foco em seus questionamentos, medos e dúvidas para além desses homens. E quando estão com eles, são preteridas por mulheres brancas. 

Para mim, como mulher negra, não se trata apenas de um conflito e de romances sendo atrapalhados para depois vermos o casal juntos novamente. Trata-se de um reforço da imagem da mulher negra como estepe, segunda opção e obstáculo para que o casal branco finalmente se una ao final da novela. 

O problema da representação 

E aqui entramos numa dos principais problemas quando o debate da representação de determinados grupos é levado para o caminho de que ele precisa ser feito da forma que for, contanto que tenhamos um negro na novela para ajudar a contar a história dos outros brancos. 

De acordo com o dicionário Michaelis, representar significa “ser a imagem ou a reprodução de; figurar como emblema, imagem ou símbolo; aparecer em outra forma diferente da habitual”. É recorrente em novelas que símbolos ou emblemas negros sejam colocados a fim de que o mínimo de representação exista na trama. Desse modo, aparecem tipos como empregadas domésticas fieis escudeiras de seus patrões, amigos para a toda a hora dos personagens brancos e um dos que mais aparecem em novelas, a da mulher negra batalhadora e resistente, que enfrenta diversos obstáculos durante a sua trajetória, mas que vence sem demonstrar estar sofrendo ou não. 

O feminismo branco ensina que, sim, mulheres não precisam de homens, numa relação de dependência e que o amor que primeiro necessita existir é o por si mesma. No entanto, quando se fala em solidão da mulher negra não é de pertencimento emocional, mas de preterimento, principalmente em relação a mulheres brancas. A imagem da mulher sensual, insaciável sexualmente e resistente está atrelada diretamente a ideia de que mulheres negras conseguem sobreviver a uma vida sem relações duradouras, sem criação de vínculos afetivos e verdadeiros.

Esse mesmo movimento por muitas vezes esquece também que diversas questões e problemáticas não são comuns a todas pertencentes ao gênero simplesmente por todas serem mulheres. Em A Dona do Pedaço, enquanto as mulheres brancas são mostradas fortes, decididas e, ao mesmo tempo, sensíveis, desejadas e disputadas, as negras são atormentadas pela possível falta do companheiro. 

É o reforço de estereótipos que tanto aparece na hora de se colocar personagens que fazem parte de minorias – neste caso não numericamente, a dificuldade em se olhar para personagens negros fora da lente racista, de lugares estabelecidos e pré-definidos; neste caso, de mulheres negras que servem até que alguma outra branca finalmente apareça. 

¹ Ana Roberta Amorim é jornalista, ganhadora do Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo Categoria Estudantil com o Portal A Cor da Minha Tela.

* O texto é a opinião do colaborador, não refletindo necessariamente a opinião do blog.

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